Igreja reduz críticas aos Kirchner e à Lei da Mídia na Argentina

Igreja reduz críticas aos Kirchner e à Lei da Mídia na Argentina

Lei está suspensa por ordem da Justiça e governo e aliados se manifestarão contra decisão

Ariel Palácios, de O Estado de S. Paulo

12 de abril de 2010 | 10h47

BUENOS AIRES - A cúpula da Igreja Católica deixará de lado o confronto que mantém com a presidente Cristina Kirchner e respaldará a mobilização que o governo realizará nesta quinta-feira para defender a controvertida Lei de Mídia. A marcha pró-governo contará com o respaldo de sindicatos, o governista partido Justicialista (Peronista) e setores da intelectualidade e organizações sociais.

 

O apoio da Igreja foi anunciado pelo padre Javier Sotera, diretor da católica Radio Maria, que também é o representante eclesiástico na Coalizão por uma Radiodifusão Democrática, associação de organizações sociais que respaldam a lei, criticada pela oposição e grupos de mídia.

 

A Lei de Mídia, embora aprovada no Parlamento em outubro passado em meio a uma controvertida sessão coalhada de irregularidades e denúncias de pagamentos de subornos a parlamentares para que votassem a favor do governo, está atualmente suspensa por ordem da Justiça.

 

Na semana passada o governo entrou com um recurso nos tribunais para remover a suspensão. Para pressionar os juízes, o governo e seus aliados pretendem realizar uma grande manifestação entre o Congresso Nacional e o edifício dos tribunais nesta quinta-feira à tarde.

 

Menos críticas

 

O respaldo da cúpula eclesiástica ao governo coincide com uma redução das críticas que a Igreja costumava fazer aos Kirchners. As relações com o clero e o casal presidencial foi marcada por alta tensão entre 2003 e 2009 (as piores relações entre o Vaticano e um governo argentino desde os anos 50). Mas, nos últimos meses, desde o debate da Lei de Mídia, as críticas do clero foram reduzidas sensivelmente e concentraram-se apenas no problema da crescente pobreza. Analistas destacam que a guinada do clero católico foi causada pelas amplas vantagens que a Igreja possui com a nova Lei de Mídia.

 

A lei prejudica os atuais grupos multimídia, já que restringe o número de canais de TV e estações de rádio, além de impedir que qualquer grupo privado tenha atuação nacional. Para complicar, a lei estabelece mecanismos de fiscalização que complicariam a obtenção de licenças para empresas de mídia críticas do governo Kirchner. No entanto, com essa lei a Igreja Católica conquistaria um amplo poder, já que poderá estar presente em todo o país com canais de TV e rádio.

 

De quebra, a Lei de Mídia determina em seu artigo número 37 que a Igreja Católica será a única entidade religiosa que terá direito a licenças de TV e rádio sem necessidade de autorizações prévias ou licitações. "Podemos contribuir desde o mundo dos valores", argumentou o padre Sotera em defesa dos privilégios que o clero obterá com a Lei de Mídia.

 

Especulações no setor político sustentam que os Kirchners - que mantiveram permanente confronto com o Vaticano desde 2003, pretendem reduzir o volume das críticas eclesiásticas, concedendo ao clero um espaço sem precedentes dentro da mídia argentina. Desta forma, fechariam uma das várias frentes de conflito que o casal mantém com diversos setores.

 

Estado laico, mas com influência da Igreja

 

Oficialmente, a Argentina possui um Estado laico. No entanto, o peso político da Igreja Católica costuma ser valorizado pelos governos argentinos, embora diversas pesquisas indiquem que na prática, apenas uma ínfima porcentagem dos habitantes do país sejam praticantes. Segundo uma pesquisa realizada no ano passado pelo governo, 76% dos argentinos foram originalmente batizados católicos. Mas, apenas 6% são praticantes.

 

Os ateus segundo a pesquisa, ultrapassam católicos e evangélicos praticantes, representando 11,3% da população.

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