Impasse em Honduras amplia divisão na América

Peru diz que reconhece eleição e expõe consolidação de 2 blocos: países que seguem e que se opõem aos EUA

Ruth Costas, O Estado de S. Paulo

26 Novembro 2009 | 07h32

O impasse sobre o reconhecimento das eleições hondurenhas de domingo ampliou a divisão entre os países da América Latina. Ontem, o Peru anunciou que também aceitará o resultado da votação, o que consolidou a cisão da região em dois blocos. De um lado, estão os que acompanharam a decisão dos EUA de aceitar a eleição: Peru, Colômbia, Panamá e Costa Rica. Do outro, o Brasil, a Argentina, o Chile e os países bolivarianos (Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua), que veem na aceitação da votação uma legitimação do golpe.

 

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Segundo analistas, quem ganha com a divisão é, sem dúvida, o governo de facto de Honduras. "Essa incerteza era o que (o presidente de facto Roberto) Micheletti precisava para legitimar o golpe como uma solução para a ameaça representada pelo presidente deposto Manuel Zelaya", disse ao Estado o costa-riquenho Kevin Casas-Zamora, especialista em América Central do Brookings Institution. "Pouco a pouco, é provável que outros países acabem também reconhecendo a votação porque, embora ela obviamente não seja a solução ideal, parece ser a única possível", concorda o especialista em política externa Clodoaldo Bueno, da Unesp.

O mandato de Zelaya acaba no fim do ano. As eleições gerais estavam previstas para este mês antes mesmo de ele ser expulso de Honduras, em junho. Apesar de inicialmente condenar o golpe, com o malogro das negociações entre o presidente deposto e o governo de facto, no início do mês, os EUA começaram a dar sinais de que poderiam reconhecer o resultado da votação. Até então, a posição de todos os países da região era que o novo governo só poderia ser aceito se Zelaya, que está abrigado na embaixada brasileira desde 21 de setembro, fosse restituído antes de os hondurenhos irem às urnas.

Pouco a pouco, porém, outros países foram se alinhando com os EUA: primeiro a Colômbia, seu parceiro tradicional. Depois o Panamá, que tem um governo de direita. E ontem, o Peru. México e alguns países da América Central ainda não se decidiram sobre o assunto.

Com a divisão se ampliando, Barack Obama chegou a enviar uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva na qual abordou o problema. O assessor especial da Presidência, Marco Aurélio Garcia, disse que considera "equivocada" a posição americana sobre a crise hondurenha.

Para Marcelo Coutinho, do Observatório Político Latino-Americano (OPSA), Honduras tornou-se um palco para o embate entre as tradicionais divisões ideológicas da região. "Na prática, os blocos de aliados são idênticos aos formados recentemente durante a polêmica sobre o acordo que permite aos EUA usar bases militares na Colômbia", diz. Ele vê na raiz da nova crise a velha contestação da hegemonia dos EUA na região.

É nesse clima de desintegração que ocorre amanhã, em Quito, a reunião da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), órgão criado para ampliar a integração política da América do Sul (leia nesta página).

Para Casas-Zamora, alguns países estão tentando minar a Organização dos Estados Americanos (OEA) ao impedir a formação de qualquer consenso entre seus membros. "O curioso é que o que precipitou o golpe em Honduras foi justamente o medo da amizade de Zelaya com o presidente venezuelano, Hugo Chávez", diz Casas-Zamora. "E, agora, Chávez está quietinho, enquanto os outros jogam o seu jogo de confronto com os EUA."

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