Impedido de visitar 4 cidades, Evo diz que Bolívia vive ditadura

Rivais proíbem presidente de entrar em áreas opositoras na véspera de referendo revogatório de mandatos

Reuters e Associated Press,

07 de agosto de 2008 | 15h06

O presidente boliviano, Evo Morales, pediu nesta quinta-feira, 7, para que a população defenda a democracia do país dias antes do referendo revogatório de mandatos, previsto para domingo. O chefe de governo qualificou ainda os protestos de grupos opositores como ditadura civil, logo depois de ser impedido de fazer campanha em quatro cidades comandadas pela direita.   Grupos antigovernamentais impediram a visita de Evo a Santa Cruz e Beni na noite da quarta-feira, onde partidários do presidente haviam organizado um comício. Na quinta-feira, colocaram quatro tratores da prefeitura na pista de aterrissagem do aeroporto de Cobija, no departamento de Pando, para impedir a chegada de Evo, informou à Rádio Fides o dirigente dos professores da cidade, David Cruz. "Morales vem fazer promessas que não cumprirá," disse Cruz.   Evo também não pôde ir à Tarija, no sul da Bolívia, onde manifestantes tomaram o aeroporto na terça-feira e impediram também a visita dos presidentes da Argentina, Cristina Kirchner, e da Venezuela, Hugo Chávez à Tarija. Ele também precisou cancelar sua visita a Sucre, a capital histórica do país (foi capital até 1899), para celebrar o dia da independência, 6 de agosto.   Ao liderar o desfile militar no aniversário das Forças Armadas em Cochabamba, uma das cidades opositoras, Evo criticou os violentos protestos realizados nesta semana. "Lamento muito agora que as ditaduras de 1960 e 1970 estejam sendo substituídas por alguns grupos que tomam aeroportos, cortes departamentais eleitorais, que apedrejam carros de ministros", disse Evo durante o desfile.   "Lamento muito que alguns faltam com respeito à democracia, faltam com respeito ao povo boliviano e apliquem está espécie de ditadura civil, atentando contra a democracia", afirmou. O mandatário pediu ainda para que a população no boicote o referendo, em que também serão decididos os cargos do vice-presidente e de oito dos nove governadores - a maioria opositores.   Três governadores opositores da Bolívia se declararam em greve de fome contra o governo. Rubén Costas, governador do departamento (estado) de Santa Cruz; Ernesto Suárez, governador de Beni e Leopoldo Fernández, governador de Pando, todos opositores, se somaram à greve de fome dos líderes cívicos regionais, iniciada no domingo passado, para exigir que La Paz devolva fundos obtidos com tributos sobre o faturamento do petróleo e gás do país. O governo arrecadou o dinheiro há mais de um ano dos orçamentos dos departamentos para pagar uma aposentadoria universal a todos os idosos do país.   Referendo revogatório   Evo deve sobreviver ao referendo de confirmação de mandato que ocorre neste fim de semana, mas a crise política instalada no país mais pobre da América do Sul deve intensificar-se enquanto seus adversários direitistas continuam tentando bloquear suas reformas de cunho socialista.   O presidente, o vice e oito dos nove governadores de Departamentos da Bolívia vão se submeter à votação de domingo, que o presidente convocou em uma tentativa de minar os governadores oposicionistas e tirar força dos movimentos pró-autonomia da região leste do país. O dirigente, o primeiro de origem indígena a comandar o governo boliviano, espera que o referendo sirva para relançar reformas tais como os processos de nacionalização e de redistribuição de terras no país andino.   Apesar de continuar a ser popular, Evo viu suas reformas dividirem cada vez mais profundamente o país, o que o obrigou a, por exemplo, suspender eventos de campanha devido a uma onda de protestos nesta semana. O dirigente já nacionalizou empresas de energia, de mineração e de telecomunicações além de estar distribuindo, na forma de repasses, parte do faturamento delas para as camadas mais baixas da população.   Evo ainda tenta aprovar uma nova Constituição que dará mais poder aos bolivianos de origem indígena, maioria no país, e que conta com grande apoio dos grupos étnicos aimará e quechua. O apoio também é grande dentro e nas cercanias de La Paz, onde o presidente representa o defensor de dois terços dos 9 milhões de moradores do país, os dois terços mais pobres.   O líder boliviano pode realmente ficar mais forte depois do referendo, especialmente se alguns dos governadores da oposição forem derrotados. Mas à votação podem se seguir manifestações, e ele ainda terá de negociar com seus adversários.

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