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Indiciamento de Cristina Kirchner acirra divisão argentina

Em ano eleitoral, presidente argentina tenta impor agenda de apelo à 'alegria' enquanto oposição pede esclarecimentos sobre morte de promotor

Rodrigo Cavalheiro, O Estado de S. Paulo

14 de fevereiro de 2015 | 21h38

BUENOS AIRES - O “nós contra eles”, a “alegria contra o silêncio”, o “amor contra o ódio” e outros recursos usados pela presidente Cristina Kirchner para distanciar seu grupo da oposição poucas vezes tiveram tanto sentido como neste carnaval, em que a Argentina atravessa uma polarização extrema. 

O feriado foi antecedido pelo indiciamento da presidente e será sucedido por uma marcha que reunirá uma multidão para homenagear Alberto Nisman, o promotor encontrado morto no dia 18, quatro dias depois de denunciá-la. Analistas veem neste início de ano a terceira grande onda de divisão pela qual passa o país nos 12 anos de kirchnerismo. A primeira ocorreu em 2008, com a chamada crise no campo, quando Cristina enfrentou ruralistas e teve uma queda de 18 pontos na popularidade em abril e maio, segundo o instituto Poliarquía. 

A segunda começou com a aprovação da Lei de Mídia, em 2009, que determina o desmembramento de grandes empresas de comunicação, e levou a um confronto aberto com o Grupo Clarín, que tem conseguido barrar a imposição da divisão com liminares.

Mesmo entre especialistas favoráveis ao kirchnerismo, não está claro se desta vez Cristina acertou ao comprar a briga contra a marcha pró-Nisman, o que levou a um choque com o Judiciário e o Ministério Público. 

“O governo se desorientou diante da morte trágica do promotor. Considerou logo de cara a marcha a partir da ótica ‘amigo-inimigo’ e não conseguiu neutralizar. É óbvio que será uma manifestação da oposição que teria sido controlada se o governismo tivesse ficado à frente”, disse ao Estado o sociólogo e consultor político Ricardo Rouvier.

Segundo ele, o movimento criado por Néstor e continuado por Cristina tem o confronto em sua essência e isso o manteve no poder durante 12 anos. “A tática é eficaz. Mas é verdade que o kirchnerismo pretende sobreviver depois de 2015 e não se apoia em um partido dinâmico e moderno. Ou seja, não tem futuro, ou seu destino está ligado à atual presidente”, afirma. 

Indiciada na sexta-feira por acobertar altos funcionários iranianos que segundo a Justiça argentina tiveram envolvimento em um atentado em 1994 contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia), matando 85 pessoas, Cristina recolheu-se no sul do país. Pelo Facebook, propôs deixar o “ódio” para “eles”. No discurso de ontem em El Calafate, evitou mencionar o indiciamento, a morte de Nisman ou a marcha prevista.

Para o sociólogo Damián Pierbattisti, da Universidade de Buenos Aires, o indiciamento de Cristina tem a ver com a eleição de outubro. “Essa ação tem um caráter tático. Serve para desgastar a figura de Cristina, que tem uma ampla imagem positiva, e retomar o poder, seja com eleições ou pela alteração da ordem constitucional. A diferença agora é que essas forças econômicas o fazem com anuência de parte importante do Judiciário, que não é eleito pelo povo”, afirma Pierbattisti. 

Rouvier discorda que a denúncia de golpismo judiciário, repetida por membros do governo e intelectuais kirchneristas como Pierbattisti, deva ser interpretada literalmente. “Não há perigo de crise de governabilidade. Mas o governo exibe esse perigo como real. O kirchnerismo põe em tensão o sistema normativo e isso produz choque com o Judiciário, que por sua vez ataca o governo”, diz.

Em bloco. Parte da estratégia de Cristina de se “apropriar” da alegria é levada ao pé da letra pelo kirchnerismo. Em uma esquina de Boedo, bairro de classe média baixa em Buenos Aires, um bloco de carnaval ensaia exaltando os feitos do “Pinguim” - apelido de Néstor Kirchner, proveniente do sul do país. O presidente do Dandys de Boedo, Gonzalo Battipaglia, de 34 anos, recebe um salário do governo para ser o “coordenador nacional do programa de fortalecimento das expressões do carnaval argentino”. O cargo é uma indicação, admite ele. “Temos discussões internas saudáveis. Quando fazemos campanha na rua, alguns nos apoiam, outros nos ignoram, outros dizem que vão nos matar. É normal.”

Durante a crise de 2001, Battipaglia era um dos jovens que atiravam coquetéis molotov contra bancos. “La Cámpora me permitiu fazer política sem esconder o rosto e atirar bombas. Temos 20 integrantes kirchneristas no bloco, mas ninguém precisa ser para participar”, afirma, salientando entretanto, que, da marcha por Nisman, duvida que alguém participe. 

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