Alan Ortega/Reuters
Alan Ortega/Reuters

Infiltração maior dos cartéis de drogas agrava violência pré-eleitoral no México

Onda de assassinatos de candidatos desenham cenário que antecede votação, daqui a uma semana

Ranata Tranches, O Estado de S. Paulo

30 de maio de 2015 | 18h02

Testemunhas e vítimas da violência endêmica no México, os mexicanos viram o quadro se agravar nas semanas que antecedem as eleições legislativas e locais marcadas para o próximo domingo. A infiltração cada vez maior do crime organizado em vários níveis da política local combinada com um processo de acomodação de novos grupos criminosos ajudam a explicar o atual cenário. 

Segundo a pesquisadora do Centro de Estudos México-EUA da Universidade da Califórnia em San Diego Gema Kloppe-Santamaria, a situação não é nova e a cada eleição os mexicanos assistem a um aumento no número de assassinatos bárbaros, que muitas vezes miram os próprios candidatos. Mas, agora, explica, há uma nova dinâmica, agravada com o poderio armamentista maior dos grupos criminosos. Os ataques às Forças Armadas com várias mortes de militares têm sido cada vez mais comuns. 

As situações mais graves são as dos Estados de Guerrero e Michoacán. Os dois, em particular, têm perfil de violência. Em sua análise publicada pelo Mexico Institute do Wilson Center, Sandra Ley explica que nesses dois Estados há atualmente vários grupos disputando o controle de território. “Políticos em ambos os Estados têm sido alvos diretos da violência criminal”, escreveu. 

No dia 14, Enrique Hernández, candidato à prefeitura de Yurécuaro, no oeste de Michoacán, foi assassinado durante um ato de campanha. Candidato do Movimento de Regeneração Nacional (Morena), Hernández era o líder de um grupo de autodefesa formado em 2013 para tentar combater o cartel Cavaleiros Templários. 

O texto de Sandra explica que em Michoacán, as eleições serão um teste para o presidente Enrique Peña Nieto, já que ocorrerão um ano e meio após a intervenção federal para retomar o controle no Estado. Ali também foram criadas polícias rurais formadas por ex-combatentes de grupos de autodefesa como o de Hernández. 

Iniciativas como essa, de autodefesa, têm sido comuns no país, como explicou Gema. Mas, ao assumi-las, seus líderes se colocam na linha de frente no conflito com o crime organizado. “Políticos têm sido mortos por não cooperar ou por não cumprir sua promessa de cooperação com os grupos criminosos”, disse Gema, em entrevista ao Estado. 

Esse tipo de retaliação não é novidade. A diferença, segundo a mexicana, é que antes os cartéis costumavam “comprar” primeiro os favores desses políticos com benefícios e privilégios. Hoje, a violência tem sido o primeiro recurso. 

A mudança se deu a partir da guerra às drogas iniciada pelo ex-presidente Felipe Calderón, em 2006 e 2007. A tática e o uso da força contra os cartéis continuaram com Peña Nieto, segundo Gema. “Em vez do domínio de cinco grandes cartéis, hoje temos um grande número de novos grupos (menores) brigando entre si e tentando ganhar o domínio sobre a política local”, explica. 

No Estado de Guerrero, em março, a assessora Nava González foi assassinada logo depois de anunciar que concorreria à prefeitura de Ahuacuotzingo pelo Partido da Revolução Democrática. 

Segundo jornais locais, ela foi decapitada e um bilhete foi deixado sobre seu corpo assinado pela gangue Los Rojos, que ameaç0u fazer o mesmo com todos os políticos que “não andarem na linha”. Seu marido, ex-prefeito de Ahuacuotzingo, foi assassinado em 2014.

“Diferentemente do governo central, que não tem imposto a lei, esses políticos locais estão tentando fazer isso, tornando-se alvos do crime organizado”, destaca Gema.

Tudo o que sabemos sobre:
méxiconarcotráfico

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.