Inflação é incógnita e desafia próximo presidente argentino

Inflação cresce junto com o PIB, e de forma duvidosa, gerando suspeitas de manipulação, aponta economista

Agência Brasil ,

14 de outubro de 2007 | 18h05

O combate à alta da inflação será um dos principais desafios do próximo presidente da Argentina, prevê o economista Juan Carlos Deheza, vice-presidente da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira de São Paulo. Desde que superou a grave crise dos anos 2001 e 2002, o país iniciou um ciclo de crescimento econômico expressivo, que tem elevado o Produto Interno Bruto (PIB, a soma de todas as riquezas produzidas em um país) em cerca de 10% ao ano. Mas a inflação cresce junto, e de forma duvidosa, gerando suspeitas de manipulação de dados por parte do atual governo. "Brasil e Argentina são países com tradição de alta inflação e sabemos que não é possível sustentar um crescimento com altos índices de inflação", disse Deheza, em entrevista à Agência Brasil. Para ele, ninguém sabe ao certo qual o ritmo atual de aumento de preços no país."O governo tem mexido no Instituto Nacional de Estatísticas e Censos [Indec, órgão que mede a inflação oficial], a gente tem alguns preços controlados que, na verdade, refletem só uma pequeníssima parcela do consumo, mas são os que aparecem no índice. Fora isso, mudaram metodologias de medição dos preços, não existe um índice real", avalia o economista. Segundo ele, algumas províncias [estados], como Mendoza, mantiveram os antigos métodos de medição. Nestes locais, "sistematicamente, os índices mensais de inflação têm sido muitíssimo mais altos que os oficiais". "Eu diria que o mais grave de tudo isso é que não existe confiança nenhuma na medição. Então, nenhum dado oficial é passível de ser considerado confiável". Deheza - que é do oposicionista Roberto Lavagna, que disputa a Presidência - calcula a inflação anual argentina em 15%, conforme disse à Agência Brasil um dirigente do partido UCR, pelo qual Lavagna é candidato. A inflação brasileira tem girado em torno de 4%. Além da inflação, Deheza aponta dois outros nós para o próximo presidente desatar: a crise energética e a necessidade de reconstruir as instituições políticas. "A Argentina não vai ter capacidade de crescer se não incorporar rapidamente os crescentes volumes de energia à economia. Isso implica mexer nos atuais sistemas de tarifas", diz o economista, lembrando que os sistemas são "altamente subsidiados" pelo governo. Isso, segundo ele, faz com que as tarifas sejam muito baixas, estimulando o consumo de energia nas residências. Quanto às instituições, ele vê um desgaste "muito grande" e uma urgência de mudar tudo, incluindo os partidos políticos. "Tem que haver um processo de refundação do Legislativo, do Judiciário, do funcionamento do Estado".

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