Jobim viaja ao Haiti em busca de apoio à liderança brasileira

Ministro tem incumbência de persuadir outros países para garantir um bom mandato para o Brasil na ONU

Tahiane Stochero, do estadao.com.br,

30 de agosto de 2007 | 15h19

Ministros da Defesa de nove países da América caminhando em Cité Soleil, reduto histórico do crime e região onde até fevereiro as tropas internacionais das Nações Unidas não entravam. A situação, que seria inimaginável há cinco meses, irá ocorrer na próxima semana, quando representantes dos países latino-americanos que possuem tropas no Haiti se reúnem em Porto Príncipe para avaliar os três anos da missão da ONU.Veja também: Acompanhe uma patrulha na região mais violenta do HaitiConvidado para o encontro, o ministro da Defesa do Brasil, Nelson Jobim, embarca domingo para o a capital haitiana com uma incumbência especial: convencer seus colegas de Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Guatemala, Paraguai, Peru e Uruguai a continuarem a manter as tropas no país, apoiando ainda a permanência da liderança militar brasileira.Em meio a um mar de pobreza no Caribe - onde 80% da população vive com menos de US$ 2 por dia -, as autoridades ficarão hospedadas no único hotel cinco estrelas do país e irão conhecer um "novo Haiti", diferente daquele que provocou a intervenção da ONU em junho de 2004, após uma onda de violência destituir o então presidente Jean-Bertrand Aristide. Sob o comando do Brasil, os militares conseguiram nestes três anos "pacificar" as regiões mais violentas, como Bel Air, Cité Militaire e Cité Soleil, prendendo líderes de gangues, responsáveis por extorsões, seqüestros e assassinatos.Agora, um ano depois da eleição do presidente René Préval e com relativa segurança, os poderes Legislativo e Judiciário começam, lentamente, a funcionar. O recolhimento de lixo, a cobrança de impostos e a distribuição de energia elétrica, até então inexistentes, começam, aos poucos, a serem realizados. O Estado democrático de direito, enfim, começa a existir.Tarefa árdua para JobimNa segunda-feira, dia 4, os ministros irão se encontrar com autoridades haitianas, visitar escolas e conversar com a população, discutindo questões como o fortalecimento da Polícia Nacional Haitiana (PNH) e a luta contra a corrupção e o narcotráfico. Mas, o objetivo principal da reunião dos ministros da Defesa é chegar a um consenso sobre a situação do país e as perspectivas da manutenção da missão da ONU para estabilização do Haiti (Minustah), cujo mandato expira em 15 de outubro. Na ocasião, o Conselho de Segurança redigirá um novo texto, com base nos novos objetivos da missão, que entra em uma fase decisiva: passa do processo da imposição da paz pelas armas (peace-enforcement) para a construção do Estado (peacebuilding), com a busca por investimentos e geração de empregos.Em um momento que comunidade internacional questiona a necessidade da permanência dos 8.825 militares em um país do tamanho do Estado de Alagoas, Jobim terá a difícil tarefa de fazer com que seus colegas saiam cientes do êxito obtido nas operações comandadas pelo Brasil nestes três anos e da necessidade de pressionarem seus respectivos Congressos para a manutenção das tropas. Jobim terá ainda de trabalhar diplomática e politicamente para que a nova resolução do Conselho de Segurança seja benéfica ao Brasil, permitindo liberdade de atuação no campo de vista militar. Quando o mandato foi renovado, em fevereiro, diante de uma nova onda de violência, os países acordaram sobre a necessidade de uma frase-chave que autorizava "o uso de todos os meios necessários para o desarmamento das gangues". A adoção do texto permitiu que os brasileiros realizassem grandes operações, capturando ou matando os principais criminosos de Cité Soleil.A liderança da missão no Haiti trouxe ao Brasil prestígio internacional. Desde 2004, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva autorizou o envio de militares, o País tem se empenhado na busca desenfreada por uma vaga permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidos, que dá direito a veto nas principais discussões sobre a política internacional. Agora, com o relativo êxito dos trabalhos, a manutenção da liderança consolidaria o reconhecimento global do ponto de vista diplomático e militar, além de uma posição privilegiada de influência sobre os países da América Latina frente aos avanços do venezuelano Hugo Chávez.Fim do estado de exceçãoContudo, a época do estado de exceção, com incursões militares e tiroteios com bandidos durante o dia, acabou. Os capacetes-azuis agora realizam patrulhas a pé, treinam a polícia local e buscam irradiar influência e conquistar a confiança da população, consolidando o trabalho de pacificação e permitindo que agências humanitárias e ONGs atuem em prol melhoria da qualidade de vida da população.As autoridades reconhecem, porém, que ainda há muito o que se fazer. O medo de que a sexta missão da ONU no Haiti em 15 anos fracasse faz com que o representante das Nações Unidas, Edmond Mulet, preveja que as tropas fiquem no país até a próxima eleição presidencial, em 2010."Quando a Minustah veio para cá, em 2004, o país estava à beira de uma guerra civil. As nossas prioridades eram estabelecer a segurança e a democracia, isto é, ter um governo legitimamente eleito no poder. Isso nós conseguimos. A segurança foi conseguida, mas não está consolidada. Se não ficarmos tempo suficiente e fizermos uma retirada precipitada, todo nosso esforço terá sido em vão. Daí vocês verão uma nova missão internacional no Haiti daqui a alguns anos. É isso o que a gente quer evitar. Uma retirada das tropas hoje seria um grande erro. Grande, com G em letra maiúscula", disse Mulet com exclusividade ao portal estadao.com.br, em maio, em Porto Príncipe.Brasil com comando totalDevido ao sucesso na pacificação do Haiti, Mulet foi promovido e deixou o país mais pobre das Américas no último domingo. Seu substituto, o tunisiano Hedi Annabi, tentará chegar a tempo de participar do encontro dos ministros. Com extensa experiência em missões de paz, Annabi está encarregado de deslanchar agora o complexo processo de restauração do Estado haitiano.Enquanto isso, por apenas alguns dias, o Brasil tem em mãos o comando total da missão da ONU: o diplomata Luiz Carlos da Costa dá as cartas temporariamente na área civil e o general gaúcho Carlos Alberto dos Santos Cruz é o comandante da força militar.

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