Luiz Raatz|Estadão
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Luiz Raatz, Enviado Especial a Lima, O Estado de S. Paulo

05 Junho 2016 | 05h00

LIMA - Os peruanos vão às urnas neste domingo, 5, para escolher o novo presidente do país em uma eleição que pode selar o retorno do fujimorismo ao poder pelas mãos de Keiko, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, 16 anos após sua queda por corrupção e violações de direitos humanos. Em dois dos palcos mais simbólicos dos crimes do ex-presidente, a Universidade de La Cantuta e o subúrbio de Barrios Altos, no entanto, a candidata do partido Fuerza Popular é favorita.

Hermínio Guevara tem uma barraca de fotocópias na rua da universidade - que fica 45 quilômetros a leste do centro de Lima. Ele conta que em 18 de julho de 1992 um amigo que dava aulas na escola conseguiu fugir do ataque lançado por militares do Exército ao local, no qual 16 pessoas morreram. O filho dele foi aluno da universidade na época do massacre. Mesmo assim, acredita que Keiko é a melhor candidata e não repetirá os erros do pai, hoje preso.

“Tenho 69 anos, sou aprista, mas acho que é hora de uma mulher chegar à presidência”, disse ele ao Estado. “Alan García, Alejandro Toledo, Ollanta Humala: todos prometeram e não fizeram nada. Ainda não esqueci os anos 90 e tudo que o senhor Fujimori fez por nós.”

Para Guevara, as violações de direitos humanos cometidas pelo governo de Alberto Fujimori se justificam em virtude do desmantelamento de grupos terroristas como o Sendero Luminoso, que, segundo ele, tinha ativistas dentro da universidade na época.

“Em todas as escolas da universidade é certo que havia terrorismo. Os professores faziam a cabeça dos alunos”, afirmou. “Não concordo com aquilo. É uma ideologia desvairada, que tinha apenas uns milhares de pessoas. Para que desse certo teriam de ter apoio em todo o Peru.”

Guevara conta que o massacre de La Cantuta começou por volta da meia-noite. O grupo Colina, paramilitares ligados ao Exército peruano, decidiu invadir a universidade dois dias depois do atentado da Rua Tarata - ação do Sendero Luminoso que derrubou um edifício e matou 25 pessoas no bairro de classe alta de Miraflores.

Os soldados tomaram o câmpus e buscaram suspeitos de participar do Sendero, grupo maoísta responsável pela explosão. Nove estudantes e um professor foram levados pelo grupo, torturados e mortos.

O vendedor lembra que nos dias que se seguiram ao sequestro dos estudantes não era possível sair na rua à noite. O Exército impusera toque de recolher e prendia suspeitos de maneira aleatória. Mas ele acredita que a derrota dos grupos radicais, no longo prazo, compensou a exceção.

“O que são dez mortos perto das vítimas do Sendero?”, questionou Guevara. “Eu venho de uma região onde eles matavam muito mais gente. Claro que se justifica (o massacre). Além disso, atacavam os postes de luz e o bairro todo ficava no escuro.”

Temor. O motorista Juan Antonio Quispe, de 35 anos, era pré-adolescente na época do massacre, mas se lembra dos cortes de luz frequentes. “Tínhamos muito medo”, contou. Ele ainda não decidiu o voto, mas tende a escolher a filha de Fujimori. “Ela entende o que as comunidades mais pobres precisam. Eu não tenho água nem tratamento de esgoto em casa e creio que com ela isso mudará.”

Por todo o bairro de La Cantuta é possível ver pôsteres e murais pintados com propagandas de Keiko Fujimori. Propagandas do rival, o economista Pedro Pablo Kuczynski, são raras.

O mesmo acontece em Barrios Altos, palco de outro abuso simbólico do regime de Fujimori. Ali, como em La Cantuta, Keiko caiu nas graças dos eleitores.

Descontentamento. Fany Mesa, de 54 anos, mora em Barrios Altos, mas tem família vivendo em La Cantuta. “Havia terroristas infiltrados na Universidade’, disse à reportagem. “Eu lembro bem da época do Fujimori. Foi difícil, principalmente o choque para conter a inflação. Mas foi necessário. Às vezes você primeiro precisa fazer o mal para depois fazer o bem.” 

Sua amiga Angelica Aguillar, que também é ambulante na Plaza Italia, no coração do bairro, compartilha da opinião de que o Sendero foi mais nocivo ao país que Fujimori. “Eu me lembro nos anos 80 quando eles invadiam as casas nas províncias e executavam as pessoas”, disse. 

Sobre a noite de 3 de novembro de 1991, ambas reconhecem que houve abusos e inocentes morreram. Na ocasião, 15 pessoas erroneamente vinculadas ao Sendero foram mortas pelo grupo Colina, entre elas uma criança de 8 anos. Eles estavam em um restaurante quando os soldados invadiram o local e abriram fogo. “É complicado, mataram inocentes aquele dia”, afirmou Fany. “Mas a verdade é que todos somos culpados por aquela época.”

Ambas votarão em Keiko e também acreditam que ela não repetirá os erros do pai. A razão encontrada por Angélica para isso é simples. “Ela não vai querer que seus filhos passem o que ela passou por causa do pai”, disse. Fany completa: “No Peru, todos somos corruptos. A polícia se vende por um sol. Mas acredito que ela, por ser mulher, fará um bom trabalho.”

Polarização. A cientista política peruana Adriana Urrutia, mestre em estudos latino-americanos, pela universidade francesa Sciences Po, explica que em muitos desses bairros palco de violações de direitos humanos parte da população carente teve acesso a direitos básicos, como educação e energia elétrica, no governo de Fujimori.

“Muita gente que pertence a esses setores sociais não contava com a presença do Estado até a chegada do Fujimori. E o governo dele coincidiu com o fim do terrorismo”, disse. “ Para essa parte da população, os seus direitos não foram violentados, mas pelo contrário. Recebeu benefícios pela primeira vez.”

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Luiz Raatz, Enviado Especial / Lima, O Estado de S. Paulo

05 Junho 2016 | 05h00

LIMA - Ao fim dos dez anos de governo de Alberto Fujimori, os principais partidos políticos do Peru, como a Apra e a Acción Popular, estavam totalmente desorganizados. Ao longo dos últimos 16 anos, as principais legendas criadas não tinham organização de base e apostavam apenas na figura de um líder como Alejandro Toledo, Ollanta Humala e Pedro Pablo Kuczysnki. Com Keiko Fujimori, isso mudou.

Um dos principais trunfos políticos da filha de Alberto Fujimori é que ela percorreu o caminho inverso ao do pai para tentar chegar ao poder. Reitor da Universidade Nacional Agrária, Fujimori aproveitou-se da insatisfação popular com a crise e os partidos políticos para se lançar à política. Criou o Cambio 90 para disputar a eleição no ano seguinte.

Keiko, após perder as eleições de 2011 para Ollanta Humala, decidiu investir no seu partido, o Fuerza Popular. Travou alianças no interior, com setores da economia, como mineradores artesanais e percorreu o país para definir uma estratégia eleitoral em 2016. Na eleição parlamentar, o Fuerza Popular saiu de 20 deputados, em 2011, para 73, este ano e terá maioria para emendar a Constituição.

“A grande diferença entre ela e o pai é que ela entendeu a importância de construir um partido desde a base”, disse ao Estado a vice-reitora de pesquisa da Universidade do Pacífico, Cinthia Sanborn. “O partido dela é pequeno em número, mas muito mais engajado que os partidos antigos, como o Apra, por exemplo.”

O Apra, do ex-presidente Alan García, é um dos partidos tradicionais que tem cada vez menos votos. Em 2011, fez apenas 4 deputados. Este ano, em coalizão com o Partido Popular Cristão, 5. García ficou em quinto lugar e quase desistiu da eleição.

“Ninguém confia mais nos políticos. Alan García no primeiro mandato era ladrão júnior. No segundo, era ladrão profissional. Se ganhasse o terceiro, teria mestrado”, disse ao Estado o aposentado Jorge Cordero.

“Muitos desses partidos são formados apenas para a eleição”, afirmou Cinthia. “Muitos jovens querem se engajar e não conseguem por isso.”

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Luiz Raatz, Enviado Especial / Lima, O Estado de S. Paulo

05 Junho 2016 | 05h00

Keiko Fujimori chega a sua segunda disputa pela presidência do Peru com a melhor chance em 16 anos de promover o retorno do fujimorismo ao poder. Vice-reitora de investigação da Universidade do Pacífico e uma das cientistas políticas mais conceituadas do Peru, Cinthia Sanborn avalia que, ganhe quem ganhe, o maior desafio do próximo presidente do país será impedir que a ascensão de uma nova classe média graças ao crescimento econômico com base na exportação de minerais seja anulado por um cenário de baixa no preço das matérias-primas aliado à ausência de proteção social e trabalhista no país. A seguir, a íntegra da entrevista:

- Como a senhora vê a possibilidade de regresso do fujimorismo ao poder no Peru?

Bom, há uma grande possibilidade. As pesquisas mostram que o resultado será muito apertado e se ele chegar à presidência terá a maioria de 2/3 do Congresso, um poder enorme, bem maior que os governos anteriores tiveram.

- No Peru de 26 anos atrás, os principais problemas do país eram a hiperinflação e o terrorismo do Sendero Luminoso. Hoje isso já não preocupa mais. O que mudou?

Do ponto de vista eleitoral há duas preocupações: crime e corrupção. Mas há um outro problema de matriz macroeconômica maior: a vulnerabilidade do país, que é dependente de exportações primárias, e o caráter informal do mercado de trabalho - a maior da região. Um retrocesso macroeconômico significaria que muita gente voltaria à pobreza.

- Os níveis de pobreza e outros indicadores sociais melhoraram neste período do boom das commodities. Agora isso mudou. Como manter essas conquistas então?

Esse é o problema. O Peru tem uma grande conquista, que é a estabilidade do modelo macroeconômico e o manejo responsável disso. Isso acontece muito porque os partidos políticos são fracos e cabe aos tecnocratas gerirem a economia. Mas o Peru não aproveitou a bonança para dinamizar a economia. E efetivamente a falta de demanda de commodities tem nos afetado. Como também o conflito social nesses setores: as questões socioambientais. Nestas eleições, o fato de no segundo turno estarem dois candidatos a favor do modelo econômico tem a ver com a exclusão de dois candidatos mais críticos a essa proposta no primeiro turno por razões questionáveis. E a terceira candidata era da esquerda ambientalista. Ou seja. Não há um consenso no país sobre para onde vamos. Qual quer um que ganhe, o desafio será proteger a população dos choques externos. Mais de 60% das empresas são informais e 79% dos trabalhadores também não são registrados. A pobreza no Peru caiu de mais de 50% a 23%, o que é uma conquista maravilhosa. Mas quem ascendeu à classe média pode voltar a pobreza rapidamente

- Por que não há regulamentação do mercado de trabalho?

É incrível. A maioria da população não tem seguro social, nem plano de saúde, contratos trabalhistas: é um país de quarto mundo nesse sentido. E você vê nas eleições que as pessoas estão fartas disso e se sentem excluídas. A sensação de desigualdade é muito grande. Muita gente vê muita riqueza no país, principalmente na mineração. Há um ressentimento social muito grande no Peru. Muito pelo tema racial. 24% das pessoas aqui se identificam como quéchua, num país onde o racismo é muito forte. Aí vem [Pedro Pablo] Kuczynski (PPK), branco, gringo e banqueiro e consegue disputar voto a voto com Keiko Fujimori, o que é notável. 

- Mas Keiko não é indígena...

Sim, mas como dizia o lema do pai: "um chinito com dos cholitos". Tampouco é da elite branca. Um de seu assessores investigados por corrupção diz que é perseguido porque é um cholo (indígena) com dinheiro e aqui quem não é branco e tem dinheiro é suspeito. É um discurso de vindicação dos mais pobres. E se você olhar, quem está a favor dela são os mais pobres.

- Isso que eu ia perguntar. Ela construiu um discurso populista, mas de direita, ao contrário de Equador, Bolívia, Venezuela...

Sim, veja, o fujimorismo é um movimento de direita muito conservador em questões morais e sociais, autoritário num sentido de como manter a ordem, apesar de serem liberais na economia. Isso não a impediria de manejar os recursos do Estado de uma maneira populista. Ela conseguiu formar uma aliança muito interessante com mineradores ilegais, que na realidade são atores políticos. Isso não é o liberalismo tradicional. Ela tem as bases para um governo de direita mais populista e, Deus não queira, autoritário.

- A questão do crime aqui incomoda muita gente. E ela maneja o tema de maneira similar à do pai em relação ao terrorismo. Por quê?

Sim, é um discurso de linha dura, mas qualquer especialista em segurança pública dirá que esse discurso carece de base. Humala também usou militares para a repressão de protestos, mas isso não funciona para a paz social. Fujimori se vangloria de pacificar o país, mas o que derrotou o terrorismo foi a inteligência, não a repressão. Não vejo Keiko com uma equipe capaz de fazer isso. Mas é um discurso de campanha muito efetivo. Ela dedicou os últimos cinco anos a organizar seu partido, o que é seu grande acerto. Mas uma coisa é fazer campanha outra é governar.

- Ela ao contrário do pai, que desprezava os partidos, construiu um novo partido em cinco anos. Como vês essa distinção.?

É a grande diferença entre os dois. Ela corrigiu isso. Nenhum dos outros partidos está com ela. 

- Essa estratégia dela lembra um pouco a de Chávez em 98, não?

É similar. A Venezuela era uma democracia com setores excluídos e pobres ressentidos. Ele trabalhou isso e derrubou a Quarta República. A nossa é mais instável. E ela tem muita gente do fujimorismo clássico, mas também muita gente nova. O partido dela é pequeno, mas muito mais engajado que os partidos antigos, como a Apra por exemplo

- E quanto a Kuczynski. Falta carisma a ele?

Ele tem virtudes. É muito capaz tecnicamente. Seria um grande ministro da economia ou presidente do BC. Tem uma carreira transparente. É um banqueiro, um senhor de direita liberal. Mas sempre transparente, honesto e comprometido com a democracia liberal. Além disso, tem em seu partido pessoas que lutam por direitos individuais, de mulheres e minorias. Mas tem carisma zero. Keiko não tem ideologia definida de maneira clara, mas é uma jovem muito carismática.As pessoas respondem com outro nível de entusiasmo. 

- Mas ele tem bastante apoio entre os jovens, não?

Sim, os jovens que não se lembram dos 80 e dos 90 formam grande parte do eleitorado. E não querem um governo corrupto. É como Bernie Sanders, pese que Bernie é de esquerda e PPK, de direita. O tema da corrupção para os jovens é muito importante.

- E o que há de diferente entre 2011 e 2016? 

Na última vez Keiko liderava e Humala acabou ganhando. Há semelhanças e diferenças. Em 2011, ela liderava e Humala surpreendeu. A imprensa tradicional estava com ela. A embaixada dos EUA, também. Todo establishment também, incluindo Kuczysnki, porque Humala representava a "ameaça chavista". Os setores mais progressistas apostaram nele, porque representava uma alternativa que muita gente ansiava. A mulher dele, Nadine, era muito carismática, e ele, como militar, inspirava segurança no tema do crime, por exemplo. Agora, a desilusão com eles é profunda. Ele não controlou o crime. Se supunha que era honesto e agora se sabe que não é bem assim. São vistos como traidores. Hoje, Kuczynski é mais fraco que Humala. É o candidato da elite limenha, não sai de San Isidro - Miraflores, não é um grande orador. Quem se desiludiu com Humala votará em Keiko. Ela é mais forte desta vez.

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