Kirchners querem estatizar transmissão do futebol

Casal fareja golpe de efeito na opinião pública com volta dos jogos à TV aberta, gratuita

Ariel Palacios, O Estado de S. Paulo

11 de agosto de 2009 | 09h12

Após reestatizar os Correios, a Aerolíneas Argentinas e outras empresas, a presidente Cristina Kirchner e seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner estão atrás do suculento business esportivo. Os Kirchners mobilizam-se para implementar a ousada jogada de estatizar a transmissão do futebol. Desde 1991, os direitos sobre os jogos pertencem à empresa Torneos y Competencias (TyC), em sociedade com o Grupo Clarín.

Kirchner ofereceu a Julio Grondona, presidente da Associação de Futebol Argentino (AFA), o dobro do dinheiro que recebe anualmente da TyC - de US$ 69,7 milhões - pelos direitos de transmissão dos jogos de futebol. No total, Kirchner propôs a Grondona US$ 156 milhões por ano, quantia que, segundo analistas esportivos, os presidentes dos clubes argentinos, à beira de falências, acolheriam com entusiasmo. O plano do governo é de que o estatal Canal 7 transmita as partidas.

Por trás da proposta, além dos "desejos estatizantes" do casal - e do golpe de efeito na opinião pública de levar o futebol aos gratuitos canais de TV aberta -, está a intensa briga que os Kirchners mantêm há um ano e meio com o Grupo Clarín, sócio da TyC na transmissão dos jogos. No ano passado, durante o conflito do governo com produtores agropecuários, a presidente acusou o jornal Clarín de preparar um "golpe de Estado".

Ontem, os presidentes dos times preparavam-se para um encontro com Grondona. Hoje, o comitê executivo da AFA deve se reunir, no município de Ezeiza, para decidir se encerra o acordo com a TyC - previsto para vencer somente em 2014 - e aceita a proposta do governo.

Ontem à tarde, em declarações à edição online do jornal Crítica, Grondona deu a entender, com ironia, que já tomou a decisão de aceitar a proposta de Kirchner: "Se você tem um marido que te bate e te dá 200 pesos para viver ao longo de todo o ano e, por outro lado, vem um cara que te ama com loucura e propõe te dar tudo o que você quer, com qual ficaria?"

CRISE

A virada inesperada no cenário do futebol argentino começou semanas atrás, quando o Sindicato de Futebolistas Argentinos exigiu dos clubes o pagamento de dívidas com os jogadores. Os times da Primeira Divisão, em grave crise financeira, afirmaram que não têm condição de pagar as dívidas de US$ 182 milhões com os jogadores e a AFA, que determinou a suspensão dos jogos e o adiamento dos torneios até dia 14.

A saída encontrada para a crise do futebol foi pedir à TyC mais dinheiro pelos direitos de transmissão. Contudo, a empresa recusou-se a pagar mais, já que isso violaria o contrato. Em meio ao impasse, surgiu o ex-presidente Kirchner, que farejou a chance de aplicar um golpe de efeito na opinião pública.

A TyC, que há 18 anos detém os direitos de transmissão, está preparando-se para retaliar com advogados, que exigiriam substancial indenização em caso de quebra de contrato. Segundo o presidente da TyC, Marcelo Bombau, há um pacto "Kirchner-Grondona". O decreto do governo que estipularia a transferência anual de US$ 156 milhões para a AFA pelos direitos de transmissão está sendo elaborado pelo secretário técnico e legal da presidência, Carlos Zanini, braço direito dos Kirchners na área jurídica há 20 anos.

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