Legado de Evita colabora para a campanha de Cristina Kirchner

A lendária primeira-dama argentinaEva Perón morreu há mais de 50 anos, mas ainda será uma forçade influência nas eleições presidenciais deste ano no país. Muitos argentinos admiram "Evita", a mulher doex-presidente Juan Perón, por ter ajudado as mulheres aconquistarem o direito ao voto, pela luta pelos direitostrabalhistas e pela fundação de hospitais e orfanatos. Os resquícios do fervor pela elegante primeira-dama dopassado acabaram ajudando na campanha presidencial da atualprimeira-dama, a senadora Cristina Fernandez de Kirchner, umaperonista histórica. As pesquisas mostram que Cristina deve ganhar as eleiçõesno dia 28 de outubro, pois conta com o apoio na classe maisbaixa e nos bairros de trabalhadores, que são fortementeperonistas e onde sobrevive o culto a Evita, mesmo que poucagente realmente se lembre dela. Nesta sexta-feira, a pesquisa privada Hugo Haime eAssociados apontou que Cristina ganhará a eleição no primeiroturno, com 47,9 por cento dos votos. Em segundo lugar ficaria acandidata de centro-esquerda Elisa Carrió, com 16 por cento,seguida por Roberto Lavagna, de centro, com 11,1 por cento. Cristina, 54, nasceu um ano depois da morte de Evita, eteve uma vida bem diferente, mas seus seguidores enxergamsemelhanças. "Ela me faz lembrar muito de Evita. Sua força, suaconvicção, o modo como usa as palavras. Ela é tão inteligente!Eu a admiro", disse Norma, 72, que não quis dar o sobrenome,num comício recente no reduto peronista de Matanza, nosarredores de Buenos Aires. Há muita gente feliz de ver uma mulher liderando omovimento peronista. "Quando eu era pequena, vivi a era Evita,agora estou vivendo a era Cristina", disse Norma. A primeira-dama tenta limitar as referências a Evita, cujosdiscursos nacionalistas e apelos emocionados aos trabalhadores-- seus "descamisados" -- acabam afastando a classe média, queCristina luta para conquistar. "Evita fez grande estrago por transformar o peronismo emfanatismo. Sua intolerância com tudo que não fosse peronista éo legado que ficou, e é um legado ruim", disse o historiadorFelix Luna. A propaganda eleitoral de Cristina na TV mostra poucasimagens de Evita, e ela diz que gosta de lembrar da líder nãocomo uma fada-madrinha que fundava hospitais e dava presentesàs crianças, mas como uma militante que lutou pela justiçasocial. Para a parlamentar Cristina Alvarez, sobrinha-neta deEvita, a peronista estaria orgulhosa de ver que a primeirapresidente argentina será peronista. "As comparações sãoinevitáveis quando se tem uma figura tão importante quanto Evano passado, especialmente porque ambas são peronistas. Mas elassão muito diferentes. Cristina é uma intelectual, de formaçãoacadêmica ... Eva tinha intuição e um grande coração." Segundo a analista política Graciela Romer, Evita semprefez questão de não ofuscar Juan Perón, sobretudo ao se recusara concorrer à Presidência, apesar dos convites. Cristina, aocontrário, mantém uma antiga parceria política com o marido, opresidente Néstor Kirchner. Ele conta com bons níveis depopularidade e quase certamente seria reeleito, mas preferiuabrir espaço para a mulher. Evita estudou só até o primeiro grau, trabalhou como atrize no rádio e morreu de câncer no colo do útero aos 33 anos. Amorte precoce, no auge de sua popularidade, consolidou seustatus simbólico na Argentina. Cristina, advogada, dedicou a vida à política, desde ostempos como ativista estudantil até a carreira no Senado. (Reportagem adicional de Katie Paul, Kevin Gray e HelenPopper)

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