Leia texto escrito por Ruy Mesquita em 1959 sobre Cuba

Em texto publicado no Estado de S.Paulo de 28 de julho de 1959, o enviado especial a Havana, hoje  diretor de Opinião do Grupo Estado, Ruy Mesquita, fez um relato sobre a recente revolução cubana. Leia a íntegra:   Fidel Castro procura construir no campo as bases de sua revolução   Havana, 27 ("O Estado") - As manifestações organizadas pelo governo revolucionário para comemorar o sexto aniversário do ataque ao Quartel de Moncada, início malogrado da revolução que viria a triunfar no dia 1º de janeiro deste ano, atingiu plenamente os fins visados. Fidel Castro conseguiu dar uma impressionante demonstração da solidez de sua posição interna, em que pesem os argumentos daqueles que comparam o espetáculo de domingo com o "golpe" dado por Peron no início de seu governo, e acusam o líder cubano de enveredar pelo caminho melancólico das ditaduras "fascistóides" que proliferam há anos neste continente.   A comparação parece-nos injusta. A vinda de milhares de "guajiros" à Capital, é verdade, teria sido impossível não fora a emulação oficial. Cuba não é hoje, e seria pueril desejar que já o fosse, uma democracia. Mas o líder revolucionário é um homem que acredita sinceramente no que se propõe realizar e se se pode, de alguma forma definir a revolução cubana, deve começar-se por estabelecer o contraste entre ela e os golpes de Estado que levaram ao poder homens como Vargas, Peron, Pinilla, Jimenez, para não falar no antagonismo moral que existe entre Fidel e as abjeções da Nicarágua e da República Dominicana.   Aqui, como o próprio Fidel fez questão de acentuar no discurso que pronunciou domingo, estamos diante de uma verdadeira revolução e não frente a um golpe de Estado. Não se trata de substituir uma "clique" governamental por outra movido apenas por motivos de ordem pessoal, ambição ou ganância. Trata-se de modificar estruturas políticas e sociais, ou melhor, de criar estruturas políticas numa sociedade que as não possuía, as quais sejam baseadas, tanto quanto possível, na realidade social desse país.   O que se torna evidente, ao primeiro contacto com a massa de "guajiros" é a preocupação que têm os líderes revolucionários de "politizar" uma massa camponesa até agora sufocada pelas oligarquias dominantes e que é a única estrutura indispensável para a base de seu movimento que, até agora, como todos os movimentos semelhantes da História, é um movimento de elites.   A manifestação de domingo demonstrou que hoje é praticamente negligenciável a oposição ao governo revolucionário entre todas as camadas da população cubana. Mas Castro não se ilude sobre o verdadeiro significado dos aplausos que lhe prodigalizam hoje aqueles mesmos setores da população que ontem aplaudiam Batista, ou se conformavam com a sua permanência corruptora no poder. Estes também estão hoje com ele, mas estariam amanhã com qualquer outro governo que o sucedesse. Não contam nessa fase em que Cuba viverá sem órgãos de representação política. O que conta, o que Castro julga absolutamente imprescindível, como ficou demonstrado pelo discurso que proferiu domingo e pelas declarações que fez hoje aos jornalistas estrangeiros que estão em Havana, é criar um estado de espírito tal entre a maioria da população, constituída pelos camponeses, que eles se identifiquem com o movimento revolucionário e reajam contra qualquer tentativa partida do exterior para deter a marcha das reformas projetadas e já em começo de execução.   Os Inimigos do Exterior   Falando domingo a uma multidão de 300 mil pessoas (o governo estimou-a em um milhão), Castro não fez mais que referir-se aos inimigos que a revolução possui no estrangeiro e que ameaçam, inclusive, intervir militarmente em Cuba. O líder revolucionário cubano, segundo informações de fonte fidedigna, tem razões para temer uma tentativa desse gênero partida da República Dominicana. Mas, mais do que tudo, Castro teme neste momento a campanha que contra ele estão movendo jornais e agências de notícias norte-americanas e políticos dos Estados Unidos.   O episódio Dias Lanz irritou-o profundamente. Os ataques que, segundo telegramas de agências noticiosas, ele lança contra os Estados Unidos, na realidade são lançados especificamente contra esses jornais e esses políticos, entre os quais, como era de esperar, ele chegou a citar nominalmente, em sua entrevista de hoje e com evidente irritação, o senador Eastland.   Castro não o diz, Castro procura negá-lo, Castro afirma que Cuba só deseja viver por seus próprios meios, mas a verdade nos parece ser a de que está convencido de que seu êxito depende do apoio que possa obter no Exterior. Ele mesmo reconhece que a situação financeira herdada da ditadura é das mais difíceis. O peso cubano já está valendo nos Estados Unidos 60 centavos de dólar, apesar de aqui continuar cotado ao par. Há rumores de que o governo cubano pretende começar a emitir em ritmo acelerado antes de setembro.   Não temos elementos para saber até que ponto chega a infiltração comunista no movimento revolucionário. O próprio Fidel Castro não nega que haja comunistas no seu movimento. Mas estamos absolutamente convencidos, depois de ouvir o discurso de domingo e depois da entrevista à imprensa de hoje, de que, enquanto ele for chefe do movimento, não haverá o menor perigo de o governo cubano transformar-se num instrumento dos comunistas.   No linguajar do líder revolucionário não se percebem quaisquer dos cacoetes vermelhos. Nos ataques que faz aos políticos e aos jornais norte-americanos, algumas vezes irados, não se encontram quaisquer vestígios do vocabulário internacionalmente empregado pelos comunistas. Na entrevista de hoje, definiu com perfeita clareza os que o atacam nos Estados Unidos. São, disse ele, a mesma imprensa e os mesmos políticos que sempre atacaram Roosevelt, porque Roosevelt investiu contra seus escusos interesses em defesa dos interesses do povo norte-americano.   China Popular   Outro pormenor que nos parece importante assinalar foi a maneira fria pela qual respondeu a um jornalista da China Popular presente à entrevista de hoje, o qual procurou colhê-lo em uma armadilha. Depois de afirmar que o povo chinês dava todo o seu apoio à revolução cubana, perguntou o jornalista o que Castro pensava da China. A resposta foi a mais breve de toda a entrevista: "Se o povo chinês está lutando por seu desenvolvimento e se o governo chinês conta com o apoio da maioria da população para empreender essa luta, desejamos todo o êxito ao povo chinês.   Note-se que todas as outras numerosíssimas perguntas feitas a Castro mereceram respostas de mais de 10 minutos. Repetimos, pois: Fidel Castro não é nada parecido com um comunista. É apenas um líder revolucionário que procura seus caminhos, tendo como preocupação máxima o saneamento moral e o desenvolvimento econômico de seu país.   Perigo   Seu governo, no entanto, difere totalmente da maioria dos demais governos oriundos de movimentos chamados revolucionários deste continente, porque é efetivamente um movimento revolucionário e não apenas o produto de um golpe de Estado. Assim, investindo contra poderosos interesses econômicos estrangeiros, provoca naturais reações e naturais contra-reações. Mas o que fazer para romper esse círculo vicioso, tanto mais perigoso, quanto se vai tornando evidente que de parte a parte a razão vai cedendo passo à exacerbação dos espíritos?   Não há dúvida de que há um perigo enorme de criar-se uma animosidade insuperável entre Cuba e os Estados Unidos. O próprio Fidel é o primeiro a reconhecer a existência desse perigo. Responsabiliza por isso homens como Eastland, que "jamais poderão confessar as razões do apoio que dão a Trujillo". Ataca violentamente o ditador dominicano, que acusa de ter confiscado toda a República Dominicana sem que ninguém o acusasse de comunista por isso, e se revolta contra a decisão da OEA de convocar uma conferência que, para ele, continua a ter origem na queixa dominicana.   Lança argumentos irrefutáveis do ponto de vista moral para protestar contra o fato de temerem a sua revolução como uma ameaça para as Américas, quando jamais se moveu uma palha contra Trujillo ou contra Somoza. Mas ao fazer tudo isso, esquece-se de um argumento essencial: é que contribuindo para que se agrave uma situação que é, em parte, o fruto da má fé de certos políticos e jornalistas norte-americanos, e em parte o fruto da incapacidade da maioria dos dirigentes e jornalistas norte-americanos de compreenderem os movimentos políticos latino-americanos; nada procurando fazer de seu lado para desfazer alguns mal-entendidos e para encorajar os numerosíssimos amigos que possui na política e no jornalismo dos EUA para defenderem a sua posição, Fidel Castro está prejudicando em primeiro lugar Cuba e em segundo lugar a revolução que tem pela frente uma das mais árduas tarefas que jamais se atribuíram a governos latino-americanos.   Veja também Leia cobertura completa da renúncia de Fidel  Ruy Mesquita fala sobre Fidel Castro e Cuba

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