Libertação foi milagre, precisamos lutar pelos reféns, diz Ingrid

Ex-candidata presidencial, ela discursou pela primeira vez após seis anos em poder das Farc

da Redação

02 de julho de 2008 | 19h34

A ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt discursou pela primeira vez nesta quarta-feira, 2, após seis anos em poder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), no aeroporto militar da capital colombiana. Ingrid agradeceu a Deus, a Colômbia, e disse acreditar que a sua libertação e a de mais 14 ex-reféns foi "um milagre". Todos os militares são um orgulho para os colombianos", disse. No entanto, Ingrid pediu que o "instante de felicidade" não fizesse esquecer "que outros morreram nas mãos da guerrilha". "Tantos estrangeiros, crianças, mulheres grávidas e idosos, vamos tirá-los de lá e ter o compromisso de que não haja mais seqüestrados", acrescentou.   "Estou muito emocionada. Primeiro dou graças a Deus, a Virgem e muitos. A Deus primeiro, segundo a todos vocês que me acompanharam, que pensaram em mim, que logo de cara sentiram compaixão por nós seqüestrados, que nos fizeram viver em suas vidas, que negaram que a única solução era esperar."   Veja também: Resgate foi absolutamente impecável, diz Ingrid Quem são os ex-reféns libertados pelo Exército colombiano EUA elogiam operação de resgate Resgate de Ingrid é vital para a paz, diz Evo Farc devem selar paz com Uribe, diz embaixador Chanceler colombiano se diz emocionado O drama de Ingrid Por dentro das Farc  Histórico dos conflitos armados na região    Depoimento dos filhos de Ingrid (em espanhol)    Ingrid relatou também como foi o seu último dia em poder da guerrilha. "Esta manhã quando me levantei, às 4 horas, ouvi que minha mãe embarcaria para a França. Que minha filha seguiria para a China, meu ex-marido dizendo que tinha uma foto minha em um encontro na França... pensei que não seria dessa vez que eu ia ser libertada", disse.   "Depois nos fizeram arrumar nossas coisas, ficamos esperando todo o dia, não sabíamos da libertação. Uma hora antes da chegada do helicóptero, o camandante Asprilla falou comigo e disse que todos subiríamos na aeronave, mas com um chefe das Farc. Perguntei para onde iríamos e ele me disse que provavelmente a outro acampamento, a um cativeiro onde ficássemos melhor e senti um aperto no coração", contou Ingrid.   "Ouvimos os helicópteros e olhei para cima, para o céu e pensei: que estranho porque pela primeira vez... cada vez que ouvia barilho de helicóptero sentia o coração acelerado", disse. "Nos fizeram cruzar o rio, chegamos a um lugar, cada refém com um guerrilheiro armado do lado. A guerrilheira que me acompanhava era estranha, pedia para eu andar 'como sempre'."   Ingrid continuou seu relato dizendo que quando os helicópteros chegaram, "saíram personagens surrealistas... homens vestidos com distintivos que os certificavam ser delegados de não sei onde. Olhava e pensava: quem são? Que comitiva internacional é essa? Será que nos vão colocar como palhaços em um novo circo? Não quero me prestar a isso", disse.   "Depois nos disseram que tínhamos que subir algemados e isso foi humilhante. Os meninos que estão comigo, meus companheiros, militares e policiais, a família que me acompanhou durante esses anos e a quem devo, especialmente a William Pérez que foi meu enfermeiro quando estive muito mal de saúde, a Juan Manuel, por sua audácia, a Uribe, que soube conduzir a situação. Obrigada porque somos colombianos. Nosso exército vai nos levar à paz", desabafou Ingrid.   Após entrarem no helicóptero, Ingrid e os outros reféns estavam "muito frustrados porque nos colocaram essas algemas. Não queria falar com eles, que nos ofereciam ajuda com nossas coisas e não deixávamos, estávamos muito irritados. Pediram até para que nós colocassemos jaquetas pois iríamos para um lugar frio", relatou.    "Quando fecharam as portas do helicóptero e vi o comandante das Farc - que por quatro anos mandou nos reféns, que tantas vezes foi cruel, nos humilhou e foi autoritário - no chão, com os olhos vendados. Não pensem que fiquei feliz, mas pensei que era uma situação lastimável. Mas dei graças a Deus, pois estava com pessoas que respeitam a vida dos outros mesmo quando são inimigos", contou.   "Foi quando o chefe da operação nos disse que eles eram do Exército nacional e que estávamos em liberdade. O helicóptero quase cai porque todos pularam, gritaram, choramos e não conseguiamos acreditar", disse Ingrid, emocionada.   No fim de seu discurso, Ingrid afirmou que a operação era "um orgulho para todos os colombianos, não há antecedentes históricos de um resgate tão perfeito. Talvez Israel possa se assemelhar ao golpe dado hoje", disse. "Não sei se os líderes das Farc sabem o que aconteceu hoje, mas o que eu posso dizer é que eles estão lá, os guerrilheiros que eram nossos carcereiros, nós os deixamos vivos, esperam que continuem vivos e que sejam julgados pelo o que aconteceu. A operação foi perfeita."   Operação   O comandante do Exército Colombiano contou como foi realizada a operação: "Fizemos de uma maneira limpa, com a inteligência militar do Exército, libertar 15 seqüestrados. Este é um êxito sem precedentes em nosso país, dedicamos ao povo colombiano, ao presidente Uribe", disse.   Ele aproveito o momento ainda para criticar a guerrilha e parabenizou todos os soldados colombiano. "Em uma operação limpa e transparente resgataram os seqüestrados. Morte às Farc. Glória aos soldados do Exército colombiano, hoje mais do que nunca me sinto orgulhoso de ser comandante do exército de todos os colombianos", disse.   Em francês, ela agradeceu ainda todos os "que acompanharam todos esse anos" seu sofrimento e disse que "é colombiana, mas é francesa." "Obrigada ao presidente Sarkozy, à França pela proteção e amor aos meus filhos", disse.     Ingrid relembrou também alguns momentos durante o período em que esteve em cativeiro. "Ao anoitecer, nos colocavam correntes e deixavam-nos no escuro. Estou doente, mas estou bem", disse.   Texto ampliado às 21h28.

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