Lugo promete reforma agrária e governo sem corrupção

'Bispo dos pobres' ainda tentará convencer governo Lula de realizar 'pagamento justo' pela energia de Itaipu

Ariel Palacios, de O Estado de S. Paulo,

21 Abril 2008 | 17h07

"O mundo está nas mãos daqueles que possuem a coragem de sonhar e correr o risco de viver seus sonhos." A frase, do escritor brasileiro Paulo Coelho, ilustra um pôster emoldurado pendurado na espartana sala de estar da casa de Fernando Armindo Lugo Méndez, o novo presidente do Paraguai, no modesto município de Lambaré, na Grande Assunção. Chamado de "o bispo dos pobres", Lugo tem uma lista de sonhos que inclui a reforma agrária, um governo que combaterá a corrupção endêmica que assola o país, além de tentar convencer o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a realizar um "pagamento justo" pela energia produzida em Itaipu que o Paraguai repassa ao Brasil.  Veja também:Lugo se diz 'serenamente contente' por vitória no ParaguaiOuça a análise do Prof. Francisco Doratioto sobre os reflexos da eleição  "Nono", como é chamado em seu círculo familiar, nasceu no dia 30 de maio de 1951 em San Pedro del Paraná, no departamento de Itapúa. Desde criança a política esteve presente em sua vida, já que seu tio materno, o caudilho político Epifanio Méndez Freitas foi perseguido e exilado pela ditadura do general Alfredo Stroessner. Filho de uma família de classe média, aos 19 anos entrou no Seminário da Missão do Verbo Divino. Posteriormente, formou-se na Universidade Católica de Assunção. Em 1977 foi ordenado sacerdote e enviado pela Igreja para o Equador, onde residiu por breve tempo. Na seqüência voltou a seu país, onde foi ordenado bispo, e em 1994 Lugo foi enviado pelo Vaticano à diocese de San Pedro, uma das mais pobres do Paraguai. Gradualmente, Lugo - um apaixonado pela Teologia da Libertação - foi participando dos movimentos sociais que cresciam na região de sua diocese. Lugo tornou-se uma figura central no apoio aos sem-terra e às comunidades indígenas. Com o passar do tempo, começou a realizar uma persistente oposição ao governo do presidente Nicanor Duarte Frutos e mobilizou a sociedade para impedir os planos do presidente para modificar a Constituição e permitir a reeleição presidencial. Em outubro de 2005, o sucesso de um bispo, monsenhor Joaquín Pigna, nas eleições realizadas na província argentina de Misiones (na fronteira com o Paraguai) para a Constituinte provincial (que derrotou o candidato fortemente respaldado pelo então presidente Néstor Kirchner), proporcionou esperanças entre os aliados de Lugo para uma eventual candidatura presidencial. Há oito meses formou uma heterogênea aliança política que muitos analistas políticos consideram "instável". Nesse intervalo, Lugo, que havia pedido formalmente sua retirada da vida sacerdotal, foi suspenso pelo papa Bento XVI, já que o sumo pontífice não concorda que os integrantes da Igreja se envolvam em política de forma direta. No entanto, a suspensão, denominada "a divinis", é temporária, o que permitirá, no futuro, que Lugo volte ao sacerdócio. Torcedor do time de futebol Cerro Porteño, Lugo bebe muito líquido o dia inteiro. Segundo seu sobrinho, também chamado Fernando, seu tio passa o dia bebendo suco, além do inevitável "tereré", uma modalidade fria do chimarrão. O núcleo da candidatura de Lugo é o "Tekojoja" (Igualdade, em idioma guarani), que reuniu-se com mais de duas dezenas de organizações sociais, camponeses, indígenas, associações de moradores e grupos de defesa dos direitos das mulheres, sindicatos e grupos de extrema esquerda, vários dos quais pertencem ao Bloco Social e Popular (BSP). Esses grupos possuem vínculos com o Movimento dos Sem-Terra (NST) do Brasil, além dos governos dos presidentes Hugo Chávez, da Venezuela; Rafael Correa, do Equador; e Evo Morales, da Bolívia. Mas, apesar do grupo definir-se como "socialista", o bispo Lugo afirmou à Agência Estado que é "de centro, uma pessoa equilibrada." Junto com estes movimentos, Lugo conta com o apoio da estrutura do tradicional Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), de tendências conservadoras. Seu vice, Federico Franco, é representante desse partido que há seis décadas tentava, infrutiferamente, derrotar os colorados. Apesar da presença do PLRA, a coalizão de Lugo também engloba colorados dissidentes, de centro-esquerda, como é o caso do "Comando Juvenil Colorado." A colcha de retalhos pilotada por Lugo também abrange partidos de centro, como os partidos Encontro Nacional e o Democrata-Cristão. Segundo os analistas, o principal ponto de união da Aliança Patriótica para a Mudança é a vontade fervorosa de desalojar o Partido Colorado do governo, onde está enraizado há 61 anos. O problema, destacam, é que esses grupos antagônicos dificilmente poderão conviver em paz e possibilitar a governabilidade para Lugo.

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