Luta por uma Venezuela livre

Uma eleição não pode ser livre e justa quando os que pensam diferente são impedidos de se candidatar ou estão preso

Leopoldo López*, The New York Times

26 Setembro 2015 | 10h30

No dia 12 de fevereiro de 2014, a repressora e inepta elite que governa a Venezuela ordenou minha prisão com base em acusações de conspiração, incêndio criminoso, incitação à violência, dano à propriedade pública e outros crimes. Posteriormente naquela semana, após duas visitas-surpresa do presidente da Assembleia Nacional ao lar de minha família, foi-me sugerido que eu buscasse refúgio numa embaixada estrangeira.

Em vez disso, decidi me entregar às autoridades, no dia 18 de fevereiro de 2014, e enfrentar o julgamento que o governo tinha planejado. Tomei essa decisão plenamente consciente dos riscos que enfrentava e as possíveis consequências de um julgamento movido por motivações políticas nas mãos de um Judiciário parcial. Assim, no dia 10 de setembro de 2014, quando a juíza Susana Barreiros - mera fantoche dos governantes obstinados na defesa de sua riqueza e privilégio - sentenciou-me a mais de 13 anos de prisão, não me arrependi da decisão que tomei. Fui condenado com base na ideia absurda segundo a qual eu teria usado “mensagens subliminares” nos meus discursos a respeito da não violência para inspirar a violência durante os protestos de fevereiro de 2014.

Vivo agora numa solitária de 2 metros de largura e 3 metros de comprimento que tem apenas uma cama, um vaso sanitário e uma pequena prateleira para minhas poucas roupas. Não tenho autorização para ter material para escrever e o único livro permitido é a Bíblia. Não tenho nem mesmo uma luz ou vela para quando escurece lá fora. Embora tudo isso tenha sido difícil para minha família, eles compreendem que grandes causas exigem grandes sacrifícios.

Estou convencido de que nossa causa é justa: a libertação de um povo das dolorosas consequências de um sistema de governo que fracassou econômica, social e politicamente. Nossa economia é a que apresenta o pior desempenho na região: a previsão é de queda de 7% no PIB, em 2015, e sofremos com a inflação mais alta do mundo. Essa inflação levou a uma devastadora escassez de artigos básicos e destruiu a produção doméstica, incluindo a indústria do petróleo. O desespero criado por tais condições, somado ao fracasso generalizado do policiamento, fez do nosso país um dos mais violentos do mundo, com quase 25 mil assassinatos somente em 2014.

Pior: perdemos nossa democracia. O governo ataca aqueles que discordam de suas posições e usa a repressão para se manter no poder. Meu julgamento tinha como objetivo enviar um recado a todos os venezuelanos, dizendo a eles que, se não desistirem e cederem ao regime, serão os próximos. Nosso governo quer acabar com nossas aspirações e nos fazer acreditar que essa luta está perdida. Querem que nos rendamos. Mas não podemos nos dar esse luxo, pois aquele que se cansar primeiro será o derrotado.

Estamos trabalhando por uma Venezuela onde os direitos sejam garantidos a todos, incluindo o direito a uma vida com dignidade. Queremos a alternância regular no poder por meio de eleições livres e justas, para que os venezuelanos possam coexistir respeitosamente, independentemente da ideologia.

Para a economia, queremos um modelo que permita a todos beneficiar-se do crescimento - principalmente os menos favorecidos. Queremos promover indústrias locais e incentivar o investimento privado para aumentar a produção e o emprego. Queremos intensificar a produção de petróleo e usar a receita proveniente para diversificar nossa economia, em vez de comprar votos. E queremos oferecer o ensino de alta qualidade necessário para que todos os venezuelanos prosperem.

Nossos planos são ambiciosos, mas têm o apoio de milhões. Para que a Venezuela avance, precisamos primeiro mudar o sistema com a remoção democrática do corrupto partido que nos governa. As eleições parlamentares marcadas para 6 de dezembro trazem essa oportunidade. Mas, para conseguir o sucesso nas urnas, precisamos nos unir. Uma aliança da oposição, a Mesa de Unidade Democrática, já foi formada, mas queremos ampliá-la para incluir todos os membros da sociedade que desejem mudanças.

Não podemos fazer isso sozinhos. Àqueles de todo o mundo que se manifestaram em nosso nome, agradeço sinceramente. Esse apoio nos dá fé, mas tais esforços não podem chegar ao fim agora. Precisamos que a comunidade internacional pressione por nossos direitos democráticos denunciando os abusos diretamente ao governo venezuelano, condenando a repressão e promovendo a solidariedade envolvendo as questões de direitos humanos na região. Precisamos que as Nações Unidas tragam tais temas para a pauta do Conselho de Direitos Humanos. E queremos que a Organização de Estados Americanos evoque sua carta democrática para debater nossa difícil situação.

Para as eleições de dezembro, é necessário exercer pressão para que o governo aceite observadores da OEA e da União Europeia, algo que não ocorre desde 2006. Sua independência e imparcialidade são mais necessárias do que nunca para garantir que nossa oportunidade de mudança não seja sabotada.

Por fim, o governo da Venezuela precisa acabar com as desqualificações gratuitas dos líderes da oposição para a próxima eleição. Os dez que foram impedidos de se candidatar incluem os ex-governadores estaduais Manuel Rosales e Pablo Pérez, os líderes da oposição María Corina Machado e Carlos Vecchio, e eu. O governo deve também libertar todos os 76 prisioneiros políticos, incluindo aqueles em prisão domiciliar, como o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, e o prefeito de San Cristóbal ilegalmente deposto, Daniel Ceballos. Uma eleição não pode ser livre e justa quando aqueles que pensam diferente são impedidos de se candidatar ou se encontram atrás das grades. (Tradução de Augusto Calil).

*É líder da oposição na Venezuela e ex-prefeito do município de Chacao

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