Maduro é proclamado presidente da Venezuela; polícia e oposição se enfrentam

Nicolás Maduro foi proclamado nesta segunda-feira presidente eleito da Venezuela, enquanto centenas de partidários da oposição entravam em confronto com as forças de segurança em Caracas e denunciavam uma fraude.

DIEGO ORÉ E MARIO NARANJO, Reuters

15 de abril de 2013 | 21h05

Maduro, um ex-sindicalista de 50 anos, recebeu 50,75 por cento dos votos na eleição presidencial de domingo, contra 48,97 por cento do governador oposicionista Henrique Capriles. O herdeiro político do líder socialista Hugo Chávez terá dessa forma o direito de governar até 2019, mas enfrentará um ambiente político e econômico espinhoso.

Essa eleição presidencial, convocada depois da morte de Chávez, vitimado por um câncer em março, foi a mais acirrada na Venezuela em quase meio século - Maduro teve escassos 275 mil votos a mais que Capriles. Apesar disso, o Conselho Nacional Eleitoral considerou o resultado irreversível e formalizou na tarde desta segunda-feira a vitória de Maduro.

"Triunfamos, eles pretendem vulnerar a maioria, a vontade popular", disse o presidente eleito.

As tensões aumentaram ao longo do dia nas ruas de Caracas. Veículos blindados e soldados da tropa de choque foram mobilizados em locais estratégicos, e manifestantes da oposição travaram confrontos com policiais em vários pontos da cidade, em incidentes com gás lacrimogêneo, pedras e paus, segundo testemunhas da Reuters. A principal avenida de Caracas foi interditada

"O que apareceu ontem na televisão foi fraude, isso (a vitória de Maduro) é uma mentira. A oposição ganhou e eles sabem disso", afirmou o manifestante Briand Alvar.

Observando a movimentação, a eleitora chavista Alicia Rodríguez, de 38 anos, disse que "Maduro já ganhou, e o povo proclama isso". "Aprendam a perder", acrescentou ela, dirigindo-se à oposição.

PEDIDO DE RECONTAGEM

Mas Capriles se negou a reconhecer o resultado, acusou Maduro de ilegitimidade e solicitou uma recontagem total dos votos, no que teve apoio da União Europeia, dos Estados Unidos e da Organização dos Estados Americanos (OEA).

"Qual é a pressa? Por que vão correr agora para proclamar? O que estão escondendo?", disse o candidato, que convocou um "panelaço" para a noite desta segunda-feira. "A luta não terminou."

Além disso, Capriles conclamou seus apoiadores a fazerem concentrações na terça-feira diante das sedes regionais do Conselho Nacional Eleitoral e disse que na quarta-feira encabeçará pessoalmente uma passeata até a sede nacional do órgão para pressionar pela recontagem.

Fontes da oposição disseram à Reuters que sua apuração paralela indicou a vitória de Capriles por uma margem superior a 300 mil votos.

Dirigentes chavistas disseram que aceitariam uma auditoria eletrônica de todos os votos, mas rejeitaram a possibilidade de abertura das urnas para a revisão de cada cédula.

A oposição diz que os votos físicos não coincidem com os eletrônicos e espera um pronunciamento oficial do CNE. "As próximas horas são críticas", disse o assessor político da oposição Pedro Benítez.

Enquanto isso, militares vigiam as urnas lacradas, em meio a denúncias de destruição de cédulas e perda de urnas.

A OEA ofereceu à Venezuela uma equipe de especialistas eleitorais, exortando as duas partes ao diálogo e a acalmar os ânimos no país.

A Casa Branca, que quase não mantém relações com o governo da Venezuela, também disse que uma auditoria dos resultados seria um passo necessário, importante e prudente.

Não é a primeira vez que o CNE se envolve em polêmicas. No passado, a oposição já acusou esse órgão de fazer vista grossa para o uso de recursos estatais em benefício de candidatos chavistas.

Durante a proclamação de Maduro, o CNE criticou a pressão internacional pela recontagem.

"Quero aproveitar a oportunidade para rejeitar categoricamente as declarações do Departamento de Estado (dos Estados Unidos) e do secretário-geral da OEA, em um ato de ingerência que busca intervir na soberania eleitoral", disse a presidente do CNE, Tibisay Lucena.

MOMENTO DIFÍCIL

A vitória apertada de Maduro amplia os enormes desafios econômicos que ele enfrentará em curto prazo, com finanças públicas pressionadas, inflação em alta e severo desabastecimento de produtos básicos.

O novo líder saiu debilitado, com o risco sofrer pressões dentro do próprio movimento chavista, um heterogêneo amálgama de socialistas radicais, políticos pragmáticos, militares conservadores e empresários oportunistas, antes unidos sob a liderança incontestável de Chávez.

Analistas previam que Maduro, apontado por Chávez como seu herdeiro político, teria uma vitória folgada, graças aos generosos programas sociais do governo e à comoção causada pela morte do líder socialista. Mas a população acabou lhe passando a fatura por problemas como a criminalidade elevada, as falhas no serviço público e a corrupção.

Sem o carisma do antecessor, Maduro promete ser o garantidor dos enormes programas sociais mantidos pelo rendimento petrolífero, e que oferecem subsídios alimentares, atendimento médico e moradias a camadas pobres da população.

De imediato, seu triunfo permite um suspiro de alívio para aliados como Cuba, Bolívia ou Nicarágua, cujas economias dependem da compra de petróleo a preços preferenciais.

Mas resta ver como o governo enfrentará as crescentes distorções econômicas geradas pelo controle estatal sobre o câmbio e os preços, o que asfixia o setor privado e pressiona perigosamente a economia.

"Este é o momento mais delicado na história do chavismo desde 2002", disse o analista Javier Corrales, do Amherst College, dos EUA, referindo-se ao breve golpe de Estado de exatos 11 anos atrás.

(Reportagem adicional de Marianna Párraga, Enrique Andrés Pretel, Eyanir Chinea, Sebastián Rocandio e Pablo Garibian)

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