Manifestações na Argentina lembram início da última ditadura

Segundo grupos de direitos humanos, mais de 30 mil argentinos estão desaparecidos desde golpe militar em 1976

Associated Press,

24 de março de 2008 | 18h04

A Argentina lembrou nesta segunda-feira, 24, o 32º aniversário do golpe militar de 1976. Nas principais cidades do país foram realizadas várias cerimônias para recordar os 30 mil civis torturados e assassinados pela última ditadura argentina, que durou sete anos. "A perda dos milhares de desaparecidos ainda dói para os argentinos", disse Eduardo Luis Duhalde, secretário dos Direitos Humanos e advogado exilado na década de 70, durante a comemoração central em Buenos Aires.   Foto: Efe   Horas mais tarde, milhares de integrantes de organizações defensoras dos direitos humanos desfilaram na Avenida de Maio, no centro de Buenos Aires, rumo a Praça de Maio, levando cartazes com os rostos de milhares de desaparecidos e exigindo justiça pelos crimes.   As Mães e Avós da Praça de Maio encabeçaram a marcha, cujos manifestantes levavam uma enorme bandeira de mais de 100 metros de comprimento, com as cores da bandeira argentina.   Duhalde foi o principal orador na cerimônia realizada no prédio onde funcionou a Escola de Mecânica das Forças Armadas (ESMA), um dos piores centros de tortura, detenções ilegais e execuções sumárias na ditadura. Atualmente, o edifício abriga o Museu da Memória, criado pelo ex-presidente Néstor Kirchner em 2006. "Nada mereceu esse ódio, não há inocentes ou culpados", afirmou o secretário.   "Em nome do governo argentino, mulheres, homens e crianças foram vítimas do terrorismo do Estado", acrescentou. A cerimônia foi ecumênica e teve a presença do sacerdote católico Domingo Bresci, do bispo metodista Aldo Echegoyen e do rabino Daniel Goldman.   Estela de Carlotto, presidenta das Avós da Praça de Maio, grupo de mulheres que tentam encontrar seus netos nascidos com suas mães nas detenções, declarou que "a justiça deve ser muito mais rápida para resolver os julgamentos que ainda acontecem" contra os violadores dos direitos humanos. "Esperar justiça por 30 anos é uma barbaridade", acrescentou. Os processos contra os responsáveis pelas repressões estiveram parados por obstáculos legais e políticos.   A Corte Suprema de Justiça abriu o caminho para o julgamento dos processos ao apontar inconstitucionalidade nas leis que regiam os casos em 2005. Segundo o Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS), principal organização de direitos humanos, atualmente tramitam 139 processos em todo o país, que envolvem cerca de mil militares e policiais.   Em 2007, foram anunciadas as primeiras condenações, com penas que oscilavam entre a prisão perpétua e 25 anos de cárcere, contra um ex-capelão católico da polícia e sete oficiais do Exército. Dois ex-presidentes militares e os ex-generais Jorge Videla e Reinaldo Bignone, que já cumprem prisão domiciliar, estão entre os processados, pela responsabilidade na tomada ilegal das crianças nascidas durante a prisão de suas mães, que hoje são consideradas desaparecidas.   Segundo os números do governo, cerca de 13 mil políticos detidos na ditadura desapareceram, mas defensores dos direitos humanos elevam o número para 30 mil.  

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