Manifestações na Argentina terminam em confronto

Risco de desabastecimento aumenta devido aos piquetes dos agricultores e Kirchner afirma que não negocia

Reuters e Ariel Palacios, de O Estado de S.Paulo,

27 de março de 2008 | 03h51

Os 'panelaços' e 'buzinaços' voltaram a tomar conta das ruas de Buenos Aires nesta quarta-feira, 26. Centenas de pessoas tomaram a Praça de Maio em apoio aos agropecuários, que estão em greve há duas semanas em protesto ao aumento de impostos. Apoiadores da presidente Cristina Kirchner, que se nega a negociar com os grevistas, também saíram as ruas e o encontro entre os dois grupos terminou em confronto. Novas manifestações de ambos os lados devem ocorrer nesta quinta e sexta-feira.  Veja também:Inflação e corrupção estão na lista de problemas do 'casal presidencial'Governadores argentinos pedem diálogo entre campo e governoArgentina adverte que reabrirá estradas fechadas por grevistas As cenas de violência na Praça de Maio, que já haviam ocorrido na terça-feira, são a réplica urbana do protesto agrícola que bloqueia o comércio de carnes e grãos no país, em um aberto desafio ao Governo que se nega a negociar. Na noite desta quarta-feira, depois de um dia de duros enfrentamentos entre os ministros e os produtores, centenas de pessoas saíram as ruas da capital argentina para solidarizar com o campo. O panelaço não era visto na Argentina desde o início de 2002. Os manifestantes tomaram a Praça de Maio. Grupos aliados a Kirchner chegaram ao local - a pedido do ex-deputado Luis D'ElDia que diz estar disposto a defender com "sua vida" o governo - e ocuparam a área.  O confronto entre os dois grupos começou quando um dos manifestantes se dirigiu a D'ElDia e o acusou de ser "pago" pela presidente. Uns dez homens o rodearam e começaram a bater nele. Enquanto isso, cerca de 100 pessoas se concentravam em frente da residência presidencial, gritando "fora Kirchner" e a criticavam por sua dura postura perante o protesto dos agropecuários. Sem acordo O governo de Cristina Kirchner deixou claro na quarta-feira, em declarações feitas pelo ministro de Economia, Martín Lousteau, que não vai ceder à pressão dos agricultores que exigem o fim dos aumentos aplicados nas retenções sobre as exportações de produtos agrícolas. "Não recuaremos", declarou, categórico, Lousteau. "Não aceitamos o método de bloquear as estradas por parte dos agricultores." O ministro, autor da medida, argumenta que os impostos colaboram na política de Cristina para impedir uma disparada dos preços dos alimentos. A greve dos agricultores é a mais dura dos quatro meses de governo de Cristina e a crescente violência multiplicam os pedidos dos dirigentes políticos para que se tente chegar a um acordo. Após a presidente chamar os agricultores de "piqueteiros bem de vida" na terça-feira, os grevistas decidiram aumentar os piquetes em mais de 300 pontos nas estradas, impedindo o trânsito de caminhões com alimentos na manhã desta quarta-feira. Segundo o presidente da Sociedade Rural, Luciano Miguens, o governo "passou dos limites" ao aumentar as retenções de 35% para 45%. Para os agricultores, o governo usa as retenções para manter o superávit fiscal. Os agricultores também impediram o trânsito de ônibus de passageiros e veículos privados. Uma pessoa com problemas cardíacos na Província de Córdoba teria morrido porque a ambulância no qual era transportada ficou retida por um piquete. Temendo bloqueios nas estradas, as empresas de ônibus interurbanos suspenderam a partida de seus veículos. O ministro da Segurança e Justiça, Aníbal Fernández, afirmou que vai garantir o livre trânsito dos caminhões que transportam alimentos. "Aqueles que não entenderem isso serão presos." Informações extra-oficiais indicavam que um grupo de governadores havia recomendado a Cristina a demissão de Lousteau, como forma de retomar o diálogo com os agricultores, que exigem a cabeça do ministro.

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