Luka Gonzales / AFP
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Presidente interino do Peru renuncia cinco dias após assumir, em meio a protestos e duas mortes

Manuel Merino, que assumiu a presidência um dia após a questionada destituição de Martín Vizcarra, teve seu governo contestado politicamente e amplamente criticado nas ruas; fracassa primeira tentativa do Congresso de escolher o novo chefe de Estado

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 14h43
Atualizado 16 de novembro de 2020 | 18h24

LIMA - Menos de uma semana após assumir a presidência interina do Peru, Manuel Merino renunciou ao cargo neste domingo, 15, pressionado politicamente depois que duas pessoas morreram e dezenas ficaram feridas no sábado na violenta repressão dos protestos contra o governo. O Congresso tentou eleger seu sucessor em primeira votação, mas a indicada em lista única, Rocío Silva Santisteban Manrique (Frente Ampla), não teve a votação necessária.

Os manifestantes têm saído às ruas desde a destituição do presidente Martín Vizcarra, aprovada na segunda-feira passada pelo Congresso em votação contestada por juristas e políticos peruanos. Neste domingo, grande parte do gabinete de Merino renunciou e ele perdeu apoio do Congresso por causa das mortes de Jack Bryan Pintado Sánchez, de 22 anos, e Inti Sotelo Camargo, de 24 anos, atingidos por disparados de policiais. 

Segundo o Ministério da Saúde, pelo menos 94 pessoas ficaram feridas no uso desproporcional de força pelos agentes de segurança. De acordo com a Coordenação Nacional de Direitos Humanos, havia 41 manifestantes desaparecidos. Várias organizações de defesa dos direitos humanos apresentaram ontem denúncias de homicídio agravado, lesões graves e abuso de autoridade contra Merino, seu primeiro-ministro, Ántero Flores-Aráoz Esparza, o ministro do Interior, Gastón Rodríguez, e as autoridades policiais de Lima.

“A queda de Merino mostra a importância política da nova geração. Os protestos de rua estão sendo liderados por jovens sem filiação política. Isso marca uma linha para a classe política de que a juventude quer uma mudança”, avalia o constitucionalista peruano Luciano Lopez sobre a balança das forças políticas após os atos de Merino.

Assim que Merino anunciou sua renúncia, os peruanos saíram às ruas para comemorar. Vizcarra também celebrou a renúncia e exortou o Tribunal Constitucional a se pronunciar o quanto antes sobre sua destituição. 

O político do Ação Popular assumiu a presidência na terça-feira, um dia após a destituição de Vizcarra, acusado de “incapacidade moral” por denúncias de recebimento de propina quando era governador de Moquegua, em 2014. A destituição levou a questionamentos sobre o cumprimento da Constituição. 

Em entrevista ao jornal peruano El Comercio, o escritor e Prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa afirmou que o Congresso violou a Constituição. “Acho que a Constituição é muito clara, um presidente pode ser acusado, mas só pode ser investigado ao término de seu mandato. Claramente, o Congresso violou a Constituição”, afirmou Llosa, colunista do Estadão.

Assim que Merino anunciou a renúncia, os peruanos saíram às ruas para comemorar. Vizcarra também celebrou e exortou o Tribunal Constitucional a se pronunciar o quanto antes sobre sua destituição. “Quero tornar pública a minha renúncia”, afirmou Merino, de 59 anos, ontem, cinco dias após ter sido empossado.

A classe política começou então a se articular para eleger o sucessor. Congressistas informavam ao longo do dia que o ideal era apresentar um nome de consenso para ganhar apoio popular.

Futuro político

O novo presidente será o terceiro a comandar o país em menos de uma semana e terá de lidar com as consequências da pandemia do novo coronavírus, somadas à grave crise política, que não parece ter data para acabar. “Acredito que a crise política ainda não acabou. A lista para a recomposição da mesa diretora do Congresso é liderada pela esquerda, que não representa a totalidade do país. Assim como o erro de Merino foi arrebatar o governo e formar um novo de direita muito conservador, ter um novo presidente de outro extremo não vai de acordo com a visão da maioria, de centro”, diz Lopez. 

E o impasse ficou claro ainda neste domingo, quando, em primeira votação, a nova mesa diretora - cujo presidente se torna o líder do país - foi rejeitada.

Em sessão extraordinária para definir a sucessão presidencial, os congressistas rejeitaram o nome de Rocío Silva com 52 votos; apenas 42 foram favoráveis ao seu nome, quando eram necessários ao menos 60. Outros 25 congressistas se abstiveram. 

Ao longo do dia, o Partido Morado - único que votou de forma unânime contra a destituição de Vizcarra -, havia proposto o nome do congressista Francisco Sagasti como presidente de transição, mas ele acabou aparecendo na lista como primeiro vice-presidente. Mais cedo, os congressistas haviam aprovado a renúncia de Merino por 120 votos a 1. “Todos que votaram a favor da destituição de Vizcarra saem perdendo. E para as próximas eleições devemos ter outsiders com chances de vitória”, disse Lopez. / COM AFP e REUTERS

 

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