Marcha indígena e protestos urbanos reacendem tensões na Bolívia

Indígenas bolivianos iniciaram na segunda-feira uma marcha de centenas de quilômetros, enquanto organizações civis de duas cidades convocavam greves e bloqueios, dando início a uma nova fase de tensão social que o governo diz ter motivação política.

CARLOS A. QUIROGA, REUTERS

15 de agosto de 2011 | 20h41

Os três protestos, em regiões muito distantes entre si, têm em comum o tom de crítica ao presidente esquerdista Evo Morales, que enfrenta também uma dura campanha da oposição conservadora por causa de uma inédita eleição de juízes pelo voto popular, marcada para outubro.

"Sem dúvida são três problemas diferentes, mas não são isolados, porque a razão fundamental (...) é que o governo tem uma gestão muito deficiente na atenção precoce aos conflitos", disse o analista Franklin Pareja, professor da universidade estatal de La Paz.

Ele acrescentou que "essas mobilizações ocorrem de forma simultânea para serem mais efetivas na hora de pressionar e romper a intransigência do governo", que no começo do ano enfrentou uma onda de protestos contra um reajuste dos combustíveis, afinal cancelado.

Mas Morales disse que a recusa dos setores mobilizados em negociar com o governo pode indicar uma tentativa de desestabilização política. "O diálogo sempre está aberto, lamento muito que não participem do diálogo. Posso entender que é uma ação política", disse o presidente a jornalistas.

O protesto mais ruidoso foi realizado por centenas de indígenas do departamento amazônico de Beni, na fronteira com Rondônia, que sob forte calor iniciaram uma caminhada de cerca de 600 quilômetros Andes acima, até La Paz, para protestar contra a construção de uma estrada de 310 quilômetros financiada principalmente pelo Brasil.

Os manifestantes rejeitaram no último mês vários convites do governo para uma consulta, exigida por lei, sobre o impacto ambiental da estrada, que custará 420 milhões de dólares e atravessará o Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Sécure.

"Essa marcha vai chegar até La Paz para fazer o governo entender e refletir, e para que mude de atitude, que mude a rota do projeto rodoviário", disse Fernando Vargas, um dos líderes da marcha.

Também na segunda-feira, a poderosa Federação de Juntas Vicinais de El Alto, controlada por um partido de oposição, iniciou um plano para bloquear ruas dessa importante cidade próxima a La Paz, num protesto contra a decisão do governo de adiar para 2012 um Censo previsto inicialmente para este ano.

A terceira manifestação ocorre na cidade de Potosí (sul), cujo comitê cívico convocou marchas e bloqueios contra o que qualificou de descumprimento governamental de um acordo para a realização de obras públicas, firmado há um ano depois de uma greve regional.

(Com reportagem adicional de Claudia Soruco em La Paz e Carlos Vargas em Trinidad)

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