Médicos cubanos serão julgados por mortes em hospital

Cuba iniciou na segunda-feira o julgamento dos responsáveis por uma clínica psiquiátrica onde 26 pacientes morreram de frio há um ano, num escândalo que revelou fissuras no famoso sistema público de saúde da ilha.

ESTEBAN ISRAEL, REUTERS

17 de janeiro de 2011 | 20h17

O julgamento ocorre num momento em que Cuba abre cautelosamente sua economia a um pequeno setor privado, demitindo cerca de 500 mil funcionários públicos, inclusive alguns do Ministério da Saúde, numa tentativa de melhorar o funcionamento dos serviços públicos, reduzir subsídios e elevar a arrecadação tributária.

Parentes dos acusados, incluindo o diretor do hospital e outros médicos, compareceram a uma apresentação oral num tribunal de Havana, junto com parentes das vítimas. Os réus propriamente ditos não estavam presentes.

"As autoridades criaram uma comissão investigativa, e os principais responsáveis compareceram à corte", disse o jornal oficial Granma na segunda-feira. "Quando o processo judicial tiver sido concluído, os resultados serão tornados públicos."

Com uma altíssima proporção de médicos em relação à população, e indicadores de saúde que rivalizam com os de países ricos, o regime comunista de Cuba se orgulha do seu sistema que oferece atendimento universal.

Mas a crise econômica exacerbou a escassez de suprimentos médicos no sistema, o que o governo atribui principalmente ao embargo econômico norte-americano.

As mortes ocorridas durante a passagem de uma frente fria foram inicialmente reveladas por uma entidade de direitos humanos, e depois confirmadas pelo governo.

A Comissão Cubana de Direitos Humanos, um órgão independente, disse que o hospital não tinha vidros nas janelas, portas nem cobertores, o que levou à morte dos pacientes quando a temperatura caiu a 3,6 graus Celsius, em janeiro de 2010, algo raro na ilha tropical.

Não ficou imediatamente claro qual é a acusação que pesa contra os responsáveis pelo hospital. "Não sabemos de nada. Só que fomos chamados à audiência. Temos fé em que tudo saíra bem", disse a irmã de uma das vítimas a jornalistas no tribunal, num bairro residencial no centro de Havana.

Elizardo Sánchez, porta-voz da Comissão Cubana de Direitos Humanos, disse a jornalistas que "aparentemente as pessoas que são realmente as responsáveis não serão julgadas". "Esperávamos ver o ministro da Saúde da época assumir a culpa pelo que aconteceu", acrescentou.

José Ramón Balaguer, que lutou ao lado dos irmãos Raúl e Fidel Castro na Revolução Cubana vitoriosa em 1959, deixou o cargo de ministro da Saúde no ano passado, mas continua sendo um membro destacado do Partido Comunista.

(Reportagem adicional de Nelson Acosta)

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