Reuters/ Edgard Garrido
Reuters/ Edgard Garrido

México recebe leva de imigrantes haitianos que 'desistiram' do Brasil para tentar a vida nos EUA

Cidades da fronteira estão recebendo pessoas que fizeram jornada pela América Central, após deixarem o Brasil para trás

Reuters

19 de outubro de 2016 | 19h26

MEXICALI - Na tentativa de entrar nos Estados Unidos, milhares de haitianos estão vivendo em condições precárias nas ruas de cidades mexicanas da fronteira. Além dos que fugiram recentemente do país, muitos que desistiram da vida no Brasil se juntam diariamente ao grupo, em Mexicali e Tijuana.

Nas duas cidades, já se concentram 5 mil pessoas - e mais 300 chegaram nos últimos dias, após uma jornada feita a partir de grandes cidades brasileiras, de acordo com informações oficiais do governo mexicano. Os caribenhos estão alocados em centros para imigrantes, em quartos sem estrutura, hotéis abandonados e no chão de igrejas, expostos ao crime organizado da perigosa região.

Para o governo norte-americano, não está claro quantos haitianos ainda vão chegar à fronteira México-Estados Unidos.  Porém, de acordo com a diretora do Departamento de Imigração (ICE), Sarah Saldana, 40 mil haitianos saíram do Brasil, após uma onda de migração que começou em 2010, como consequência do terremoto que devastou país. Desses, cerca de 8 mil estão no Panamá e na Costa Rica, de acordo com os governos locais.

Desde 2010, 80 mil haitianos foram abrigados no Brasil, que foi escolhido por conta das boas relações diplomáticas e do "boom" na economia no País na época. Mas a crise recente vem levando os caribenhos a procurarem cada vez mais os Estados Unidos. "Não queremos causar problemas no México. Queremos ir aos Estados Unidos, para trabalhar ajudar nossas famílias", falou Peterson Joseph. 

"[No Brasil], não tem mais trabalho. A economia está congelada e, agora, eu estou presa aqui, sem dinheiro, sem esperança, sem ter como voltar para ver meus filhos", contou Carolina Pierre Louis, uma haitiana que vivia em São Paulo.  Para fugir do cenário brasileiro, os imigrantes estão fazendo uma perigosa jornada por países da América Central, por montanhas e florestas. A maioria dos países latinos dificulta a passagem de haitianos e, por isso, muitos estão fingindo ser do Congo, país sem relações diplomáticas com o México - por isso, evitariam a deportação.

Na fronteira, os haitianos ainda não estão tentando entrar ilegalmente no Estados Unidos, mas pedem asilo ao governo norte-americano. Entretanto, as instalações para imigrantes estão sobrecarregadas e não há como fazer entrevistas com todo mundo, já que, todos os dias, uma quantidade três vezes maior de pessoas chega à região.  Este ano, mais de 5 mil imigrantes do Haiti entraram no país sem visto, contra apenas 339 em 2015. 

Três igrejas protestantes abriram suas portas para os novos desabrigados, que também ocupam áreas numa zona tradicionalmente habitada por usuários de drogas. À reportagem da agência de notícias Reuters, três haitianos disseram que estão sendo atacados e extorquidos por criminosos locais. "Eles estão expostos tanto a ser assaltados como se tornar assaltantes, porque muitos estão nas ruas, sem trabalho", disse Margarita Andonaegui, diretora de um abrigo em Tijuana.

De acordo com o México, em 2016, 4 mil haitianos entraram no país e 11 mil africanos - e muitos desses, possivelmente, são haitianos disfarçados. Alguns imigrantes disseram que já gastaram até US$ 7 mil para realizar a jornada. Sandra Joseph, uma mãe de 22 anos com três filhos, falou que nem lembra mais o quanto gastou. "Fomos roubados por traficantes e policiais. Eles cobraram US$ 1,3 mil para cruzar a fronteira da Nicarágua. Não tenho mais nada", falou. 

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