Micheletti critica 'intromissão' dos EUA por apoiar Zelaya

Honduras critica reunião de embaixador americano com deposto; 88 são presos e 25 feridos em protestos

31 de julho de 2009 | 08h35

O presidente de facto de Honduras, Roberto Micheletti, qualificou na quinta-feira, 30, como uma "intromissão" a reunião que o embaixador americano em Tegucigalpa, Hugo Llorens, teve com o líder deposto Manuel Zelaya. Micheletti reiterou que está disposto a deixar o poder a um terceiro líder que não seja Zelaya. O descontentamento no país continua e um protesto de centenas de simpatizantes de Zelaya foi dispersado por policiais com uso de gás lacrimogêneo e tiros, que causaram vários feridos, alguns em gravidade

 

Veja também:

linkProcuradoria de Honduras faz nova denúncia contra Zelaya

linkCongresso adia resposta ao plano da Costa Rica

som Enviado do "Estado" comenta manifestações pró-Zelaya 

lista Perfil: Zelaya fez governo à esquerda em Honduras

especialEntenda a origem da crise política em Honduras

especialPara analistas, pressão econômica seria a saída

 

Os Estados Unidos e quase toda a comunidade internacional defendem o regresso de Zelaya ao poder para que cumpra seu mandato até janeiro. Mas o governo de facto, a Suprema Corte hondurenha e o Congresso - que apoiaram o golpe - são totalmente contra a volta do presidente deposto à Presidência. Llorens liderou uma delegação do governo de Barack Obama que encontrou Zelaya na Nicarágua para "tratar novos esforços" para o retorno da ordem constitucional em Honduras, segundo afirmou o representante de negócios da embaixada de Manágua, Richard Sanders.

 

Zelaya pediu aos Estados Unidos que "intensifiquem de forma mais energética, mais forte e com maior decisão" suas medidas contra as novas autoridades de seu país "para reverter o processo e os efeitos negativos do golpe de Estado que está envergonhando e humilhando a própria humanidade". O diplomata americano reiterou que o governo de Zelaya é o único reconhecido pelos EUA para Honduras.

 

"Não posso fazer comentários sobre algo que não tenho conhecimento, mas se vocês estão seguros disso e sabem que o embaixador americano se reuniu com Zelaya, é uma intromissão", afirmou Micheletti aos jornalistas. "O senhor embaixador está cometendo um grave erro se está fazendo isso... Não queremos interferência de nenhum país nos assuntos de Honduras".

 

Na quinta-feira, dezenas de pessoas ficaram feridas em Honduras durante as repressões policiais contra as manifestações, realizadas de forma pacífica, que exigiam o retorno do presidente deposto Manuel Zelaya. Cerca de 88 manifestantes foram presos, disse a polícia, acrescentando que dois feridos tinham sido atingidos por balas. Segundo investigações preliminares da polícia, os tiros teriam sido disparados pelos manifestantes e não pelas forças de segurança.

 

Os principais dirigentes da Frente Nacional de Resistência contra o Golpe de Estado estão feridos ou foram detidos, entre eles Carlos Reyes, Rafael Alegría e Juan Barahona, que coordenavam a manifestação e o bloqueio da estrada de El Durazno, na saída de Tegucigalpa, ao norte do país. Segundo denúncias, policiais e militares lançaram gases lacrimogêneos, disparos e agrediram fisicamente os manifestantes. Muitos debandaram, mas foram perseguidos e detidos. Jornalistas também foram alvos da repressão.

 

Carlos Reyes, que é candidato independente às presidenciais de novembro e dirigente do Bloco Popular, foi ferido na cabeça e sofreu uma fratura em um dos braços. Um professor do Ensino Médio, Roger Valleio Soriano, também foi ferido na cabeça e encontra-se em estado grave no Hospital Escola de Tegucigalpa, onde foram atendidos outros quatro manifestantes. Da Nicarágua, onde está exilado, Zelaya disse que vai apresentar acusações na Corte Penal Internacional contra vários líderes do golpe, incluindo Micheletti e o chefe do Estado Maior, Romeo Vásquez.

 

O governo de facto de Honduras convidou figuras importantes de vários países, incluindo Colômbia e Canadá, para formar uma missão que ajude a solucionar a crise gerada no país após o golpe de Estado. Na comitiva, se destaca o ex-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Enrique Iglesias, informou o governo do presidente interino Roberto Micheletti, na quinta-feira, numa jogada considerada por alguns como uma intenção de convencer os hondurenhos de que se pode achar uma solução para o conflito.

 

"Esta comissão convidada seria formada por personalidades importantes e representantes de Panamá, Colômbia, Canadá, El Salvador e Guatemala. Entre eles se destaca o senhor Enrique Iglesias... que considerou aceitar o convite", disse um comunicado entregue a jornalistas. A formação de uma missão e a participação de Iglesias foi solicitada por Micheletti ao mediador da crise, o presidente da Costa Rica, Oscar Arias.

Tudo o que sabemos sobre:
Honduras

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.