Morre Raúl Alfonsin, presidente da redemocratização argentina

Ex-presidente, cujo governo julgou líderes da ditadura nos anos 80, sofria de câncer no pulmão e tinha 82 anos

Ariel Palácios e Marina Guimarães , O Estado de S. Paulo e AE

31 de março de 2009 | 21h26

Alfonsín ao lado da presidente Cristina Kirchner em uma de suas últimas aparições públicas (Efe)

BUENOS AIRES - O ex-presidente argentino Raúl Alfonsín faleceu nesta terça-feira, 31, às 20:30, aos 82 anos de câncer no pulmão, agravado por uma metástase nos ossos e - nos últimos dias - uma forte pneumonia, em Buenos Aires.

 

Sem poder falar ao longo desta semana, devido à sua fraqueza física, Alfonsín, em silêncio, recebeu pela manhã a unção de monsenhor Justo Laguna, seu amigo de longa data. Ao longo do dia, seu estado complicou-se. Uma multidão, que esperava notícias na porta de seu edifício, na Avenida Santa Fe, cantou - aos prantos - o Hino Nacional quando foi informada de seu falecimento.

 

Seu médico pessoal anunciou que "foi ficando adormecido e morreu em paz" na companhia dos filhos e netos "na tranquilidade do lar".

 

A expectativa é que o funeral de Alfonsín congregue na Argentina chefes de governo, e velhos conhecidos seus da época em que governou o país, tal como o ex-presidente José Sarney, do qual tornou-se um íntimo amigo.

 

Seus restos mortais serão velados no Congresso Nacional. Desde outubro passado Alfonsín não aparecia em público. Em novembro, fontes de seu entourage afirmaram ao Estado que o ex-presidente sofria fortes dores por causa do câncer.

 

Perfil

 

Alfonsín foi o primeiro presidente desde a volta da Democracia à Argentina em 1983. Terminou seu mandato seis meses antes do previsto, em julho de 1989, no meio do caos hiperinflacionário. Candidato ao Prêmio Nobel da Paz, o ex-presidente nunca foi acusado de envolvimento em casos de corrupção, ao contrário de todos seus sucessores. Alfonsín é considerado o "pai da Democracia argentina".

 

Nasceu na cidade argentina de Chascomús em 12 de março de 1927. Era advogado e político. Foi deputado nacional, senador e Presidente da Argentina de 1983 a 1989. Considerado pelos analistas políticos como o "o pai da democracia na América Latina", Alfonsín foi o responsável pela transição da ditadura à democracia na Argentina, sendo o primeiro presidente eleito nas urnas depois da última ditadura (1976-1983), em outubro de 1983. Também foi o primeiro membro da União Cívica Radical (UCR) a vencer o Partido Justicialista (PJ), também chamado de partido peronista.

 

Alfonsín assumiu a Presidência dois meses depois das eleições, depois de sete anos de uma violenta ditadura, que deixou 30 mil desaparecidos, segundo os organismos de direitos humanos.

Durante seu governo foi realizado em 1985 o histórico julgamento das juntas militares, no qual chefes da ditadura foram condenados à prisão perpétua. Mas em seu mandato também foram sancionadas polêmicas leis de anistia que livraram milhares de acusados de crimes contra a humanidade. No governo de Néstor Kirchner (2003-2007), estas leis foram anuladas e os militares acusados foram processados.

 

O líder da UCR renunciou ao seu governo seis meses antes de terminar seu mandato por causa da hiperinflação. Alfonsín foi sucedido pelo justicialista Carlos Menem, que ficou no poder 10 anos (1989 a 1999).

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