Morte de crianças assombra 'guerra das drogas' no México

Outrora meros espectadores das mortes de pistoleiros, policiais e transeuntes inocentes, as crianças estão cada vez mais na linha de fogo da "guerra das drogas" no México.

MIGUEL ÁNGEL GUTIÉRREZ, REUTERS

19 de julho de 2011 | 21h05

Os menores inicialmente representavam uma pequena proporção entre as vítimas do conflito, que já tirou mais de 40 mil vidas em quatro anos e meio, mas nos últimos meses a quantidade de crianças e adolescentes mortos cresceu acentuadamente, e os assassinatos se tornaram mais indiscriminados.

Mais de um quarto dos 112 milhões de habitantes do México tem menos de 18 anos, e economistas dizem que o país pode estragar o seu futuro se o governo do presidente Felipe Calderón não conseguir conter o envolvimento dos jovens com a violência.

"Esta vida é um desastre", disse Agustina Carrillo, cujo filho de 17 anos foi morto a tiros por um jovem narcotraficante em Ciudad Juarez (norte), epicentro da violência associada às drogas e importante ponto de passagem dos narcóticos para os Estados Unidos.

Há poucos dados disponíveis sobre as mortes de crianças e adolescentes, mas as cifras do governo mostram que o número de homicídios com vítimas de 16 a 20 anos no Estado de Chihuahua -- onde fica Juarez -- quase triplicou em dois anos, passando de 136 em 2008 para 386 em 2010.

Parentes enlutados têm usado a mídia para criticar Calderón e o seu Partido Ação Nacional (PAN), que foi massacrado numa eleição estadual no mês passado.

Muitos deles também participaram de uma marcha pela paz que atravessou grande parte do país em junho, pedindo ao presidente que interrompa o conflito armado que ele iniciou logo depois de tomar posse, em dezembro de 2006.

A Organização das Nações Unidas (ONU) pediu neste ano ao governo do México mais empenho na investigação de crimes contra menores, e um maior combate contra a impunidade, especialmente de soldados do Exército, igualmente suspeitos por algumas das mortes.

Embora continue sendo mais popular do que o seu partido, Calderón enfrenta o nível de aprovação popular mais baixo desde a posse, e no mês passado se reuniu com vítimas da "guerra das drogas" para pedir desculpas, mas acabou sendo repreendido ao vivo na televisão por mães enfurecidas.

A maioria das vítimas do conflito tem de 18 a 35 anos, mas a Rede pelos Direitos da Infância no México (Redim) diz que cerca de 1.300 menores também foram mortos desde o início da "guerra das drogas."

Um relatório publicado no começo de 2011 pela Redim mostrou que a violência havia matado 994 crianças e adolescentes até novembro do ano passado, ou cerca de 21 por mês. Nos oito meses desde então, a entidade calcula que mais 300 tenham morrido, uma média de quase 38 por mês.

O que deixa os analistas particularmente alarmados é que, enquanto antes muitas das mortes eram acidentais, agora estão sendo vistas atrocidades contra crianças cometidas deliberadamente, o que se traduz, por exemplo, em cadáveres desmembrados.

"Uma tendência clara é notável: no começo de 2010, muitas mortes se deviam a balas perdidas", disse Martín Perez, diretor da Redim. "Desde então, podemos ver que o crime organizado começou a matar meninos e meninas para mandar recados a outros cartéis."

(Reportagem adicional de Julian Cardona)

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