Morte de dissidente cubano foi acidente, dizem testemunhas

Sobreviventes de um acidente de trânsito que custou a vida do dissidente cubano Oswaldo Payá negaram nesta segunda-feira versões de que outro carro se chocou contra o deles, o que teria causado o sinistro. Um deles pediu desculpas por ter realizado atividades políticas "ilícitas" na ilha, governada por um regime comunista.

ROSA TANIA VALDÉS, Reuters

30 de julho de 2012 | 16h50

Payá, de 60 anos, era um dos mais importantes opositores do governo cubano. Ele morreu em 22 de julho, quando o carro em que estava saiu da estrada e se chocou contra uma árvore na província de Granma, leste do país e a cerca de 800 quilômetros de Havana.

Um dos sobreviventes, o presidente da Liga da Juventude Democrata-Cristã da Suécia, Jens Aron Modig, garantiu a jornalistas em Havana que o carro em que viajavam não foi abalroado por outro veículo, como sugeriram parentes de Payá durante o funeral, na semana passada.

"Não me lembro de que tenha havido algum outro carro envolvido neste acidente", disse o sueco, de 27 anos, que admitiu ter "vagas lembranças" do choque porque dormiu na maior parte da viagem.

Já o motorista do veículo, o espanhol Angel Carromero Barrios, subsecretário de Novas Gerações, do governista Partido Popular da Espanha, admitiu ter perdido o controle ao entrar em um trecho da via que estava em reparos.

"Perdi o controle do veículo ... perdi a estabilidade, e a direção já não funcionava. Não pude manter (o controle) o carro. Não me recordo de mais nada", disse Carromero em um breve vídeo transmitido a jornalistas durante a entrevista à imprensa.

"Nenhum veículo bateu no nosso pela parte traseira. Simplesmente eu ia dirigindo, houve um solavanco e tomei a precaução que qualquer motorista tomaria."

O Ministério do Interior cubano afirmou no sábado em nota à imprensa que, segundo análise de peritos, o acidente ocorreu porque Carromero seguia em excesso de velocidade em uma estrada que estava sendo reparada, não respeitou o sinal de aviso e tomou a "decisão errada" de frear repentinamente em uma superfície escorregadia.

Os dois sobreviventes permanecem na ilha. Um funcionário cubano consultado disse que eles continuam detidos enquanto prossegue a investigação e não revelou se foram formuladas acusações contra eles.

ATIVIDADE POLÍTICA "ILÍCITA"

Aron Modig disse a jornalistas que viajou a Cuba com "instruções" de seu partido para contatar Payá, entregar-lhe 4 mil euros, reunir-se com membros do Movimento Cristão de Libertação para "trocar experiências" e ajudar o dissidente a trasladar-se para outras partes do país.

"Entendi que essas atividades não são legais em Cuba e desejaria desculpar-me por ter vindo a este país para realizar atividades ilícitas", afirmou.

Ele contou que esta é a sua segunda viagem a Cuba, tendo ido ao país pela primeira vez em 2009, quando se reuniu com economistas e jornalistas independentes, aos quais entregou dinheiro e equipamentos.

Em vídeo antes da entrevista, Aron Modig disse que também pretendia se reunir com a filha de Payá, Rosa María, de 23 anos, para organizar uma ala juvenil do movimento fundado pelo pai dela.

O governo cubano considera os dissidentes "mercenários" a serviço de potências estrangeiras, especialmente os Estados Unidos. No acidente também morreu o jovem dissidente Harold Cepero, membro do movimento fundado por Payá na década de 1980.

Carromero aproveitou o vídeo para enviar uma mensagem ao exterior.

"Peço à comunidade internacional que, por favor, concentre-se em me tirar daqui e não em utilizar um acidente de trânsito, que poderia ter ocorrido com qualquer outra pessoa, com fins políticos", declarou.

(Reportagem de Rosa Tania Valdés)

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