Pablo La Rosa/Reuters
Pablo La Rosa/Reuters

Mujica, ex-guerrilheiro a um passo da presidência

Pepe, favorito na disputa uruguaia, trocou lambreta por um Fusca-82 ao ser nomeado ministro

Reuters e Ariel Palacios, de O Estado de S. Paulo,

27 Novembro 2009 | 15h13

Na década de 1960, Jose "Pepe" Mujica tentou mudar o rumo do Uruguai como um dos líderes do movimento de esquerda. Depois de mais de 40 anos, durante os quais viveu clandestinamente e passou mais de uma década na prisão, aposta em "armas políticas" para ganhar as eleições uruguaias e dar à coalizão de esquerda da Frente Ampla um segundo período consecutivo no poder.

 

Sua forma coloquial de falar, que inclui frequentes exaltações, e um estilo desalinhado de se vestir o fizeram de alvo para críticas de dentro e de fora do universo da política. Seu passado guerrilheiro desperta algumas dúvidas, mesmo que tenha tentado moderar seu impacto com uma imagem mais estilizada e levando ao seu lado como companheiro de legenda o ex-ministro de Economia de Vazquez, Danilo Astori.

 

Manuela, uma cachorra de 16 anos, acompanhou Mujica durante sua campanha na periferia de Montevidéu. A cadela é presença frequente nos desfiles e comícios do ex-guerrilheiro tupamaro, de 74 anos, da coalizão de governo Frente Ampla. A presença de Manuela é só mais um item da informalidade da campanha deste ex-preso político que abomina as gravatas e despreza o protocolo. Mujica decidiu passar as últimas horas de campanha em seu sítio, para se preparar para o dia da votação. Ele se recusou a dar entrevistas, mas aceitou receber uma rápida visita de repórteres no local, onde tem viveiros de flores e planta hortaliças. Durante o passeio, ele lamentou o aquecimento global, que causou uma seca intensa na região que afetou suas plantações.

 

A casa simples (onde tem viveiros de flores e planta hortaliças) e mora com sua mulher - a senadora Lucia Topolansky, também ex-guerrilheira - é um retrato da modéstia do candidato. Os meios de transporte de Mujica também ilustram seu cotidiano. Durante duas décadas, ele teve uma lambreta que, segundo depoimento de amigos, "caía aos pedaços". Há menos de cinco anos, já no governo de Tabaré Vázquez, ele decidiu trocar a lambreta por um Fusca modelo 1982.

 

Mujica nasceu em Montevidéu em uma família de classe média. Na juventude, filiou-se ao Partido Nacional (Branco). Mas, nos anos 60, optou pela militância de esquerda e entrou para o Movimento de Libertação Nacional-Tupamaros. Rapidamente, tornou-se um dos principais líderes do grupo que protagonizou as principais ações da guerrilha armada no Uruguai. Em 1969, durante algumas horas, os tupamaros tomaram a cidade de Pando. Durante confrontos com as forças de segurança, ele foi ferido com seis balas. E sofreu torturas nos 13 anos em que ficou no preso. Em 1985, com a volta da democracia, recuperou a liberdade.

 

Mujica aproveitou os novos tempos e transformou o grupo de ex-guerrilheiros em um coeso partido político que posteriormente integrou a coalizão Frente Ampla, uma colcha de retalhos que aglutina socialistas, comunistas e democratas-cristãos. Para um ex-guerrilheiro tupamaro, as propostas de Mujica são moderadas - a mais polêmica é a defesa do direito de aborto.

 

Em respaldo ao primeiro governo de esquerda da história do Uruguai, Mujica afirma que se for eleito, seguirá com as políticas do presidente Tabaré Vazquez, reforçando os objetivos de lutar contra a pobreza e melhorar a situação dos trabalhadores e produtores rurais de médio porte.

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