Enrique Marcarian/ Reuters
Enrique Marcarian/ Reuters

Na Guerra contra a mídia, Kirchners seguem os passos de Perón

Casal presidencial tenta controlar meios de comunicação de massa, tal como fundador do peronismo há 60 anos

Ariel Palacios, correspondente ,

10 de outubro de 2009 | 00h14

Poucos meses antes de morrer em 1974, o presidente Juan Domingo Perón admitiu: “fui colocado para fora do governo quando tinha todos os meios de comunicação a favor...e ganhei as eleições quando os tinha todos contra mim!”. Perón referia-se à sua queda, em 1955, época em que ostentava um controle sem precedentes da maioria dos meios de comunicação, e de sua vitoriosa eleição, em 1974, quando a mídia era majoritariamente contra o septuagenário caudilho.

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A frase do fundador do peronismo foi recordada intensamente nas últimas semanas, especialmente depois que a Câmara de Deputados aprovou a polêmica lei de radiodifusão - também denominada de “lei de mídia” - que determina maior controle da mídia por parte do governo da presidente Cristina Kirchner e seu marido, antecessor e ex-presidente Néstor Kirchner (considerado o verdadeiro poder no governo de sua esposa). Na madrugada deste sábado, a aprovação da lei da mídia no Senado trouxe à tona a velha frase do fundador do peronismo, partido ao qual pertence o casal Kirchner.

No entanto, o casal Kirchner, afirmam analistas e representantes da oposição, em vez de comportar-se como o Perón dos últimos anos, reprisam a ambição de controle dos meios de comunicação que o caudilho exercia nos anos 40 e 50.

Da mesma forma que os Kirchners tentam atualmente destruir o poder do Grupo Clarín, o maior holding multimídia argentino, a exemplo de Perón e sua esposa Eva que puseram uma série de restrições à mídia privada e armaram uma superestrutura de meios de comunicação estatais, além de redes privadas de empresários “amigáveis”.

PRESSÕES Perón inicialmente tentava defender-se dos ataques da oposição, conta o historiador Eduardo Lazzari. Mas, logo depois percebeu que a defesa não era suficiente e fechou jornais como “La Prensa”, entregue a sindicalistas fiéis.

Nos dois primeiros governos de Perón (1946-55), grande parte dos donos de meios de comunicação foram pressionados a vender seus jornais, revistas e estações de rádio. Em alguns casos, se os empresários mostrassem obediência, podiam ser designados como diretores de suas ex-empresas, agora estatizadas, de forma a camuflar a compra compulsória realizada pelo governo.

O modus operandi era o de destinar os fundos necessários para essas compras eram provenientes do Instituto Argentina para o Estímulo ao Intercâmbio (Iapi), comandado por Miguel Miranda, um gênio da contabilidade criativa.

MÍDIA ALIADA O governo peronista contava com um quarteto de redes de comunicação. Além do colossal monopólio estatal, o Alea SA, tinha o respaldo de três grupos nominalmente privados: a editora Heynes, a Associação Promotores de Teleradiodifusão e a editora La Razón, que editava o influente jornal homônimo.

Tal como o governo da presidente Cristina Kirchner fez com o jornal Clarín há uma semana e meia - ao realizar uma blitz de insólitas proporções da Afip (a receita federal argentina) - as companhias jornalísticas que resistiam ao assédio de Perón eram pressionadas com o Fisco.

O braço inquisidor do governo peronista era a Comissão Bicameral de Atividades Argentinas, comandada pelo ultra-peronista deputado Emilio Visca, que vasculhava os livros de contabilidade dos jornais não alinhados com Perón para ter argumentos para seu fechamento, confisco ou intervenção.

LA PRENSA

Esse foi o caso de La Prensa, jornal da aristocrática família Paz - definido pela revista americana Time como um dos mais respeitados periódicos do mundo na época - e detestado por Evita Perón, a primeira-dama. O La Prensa, cuja tiragem era de 480 mil exemplares, tornou-se alvo de uma campanha do governo a partir de 1947.

O La Prensa foi atacado pelas rádios aliadas do governo e enfrentou uma campanha oficial que promovia o boicote da compra de seus exemplares. Os anunciantes eram pressionados para não colocar publicidade nas páginas do La Prensa. O racionamento de papel encolheu o jornal das 40 páginas costumeiras a apenas 12. Mas, o jornal, apesar das pressões, continuava saindo às ruas.

Em 1950, o governo confiscou as novas rotativas importadas e as destinou para o Democracia, jornal editado pelo próprio Estado argentino. Em 1951 o sindicato dos jornaleiros ameaçou não distribuir mais o periódico.

Na sequência, com a aprovação do Parlamento - no qual o peronismo era maioria - foi confiscado e entregue à Confederação Geral do Trabalho (CGT), a única central sindical autorizada por Perón. O líder do bloco peronista na Câmara, John William Cooke, afirmou que o governo estava contra La Prensa porque, segundo ele, o jornal “estava contra os operários e contra os peronistas”.

Outros jornais, como La Nación - que já enfrentava o racionamento de papel de jornal, controlado pelo governo - tiveram que moderar suas críticas ao presidente Perón, para evitar correr destino similar ao La Prensa.

Com a queda de Perón em 1955, o La Prensa voltou às mãos de seus donos originais. No entanto, o jornal nunca mais foi o mesmo, já que durante a intervenção iniciou uma fase de decadência que foi aproveitada por um periódico que começava seus primeiros passos, o Clarín, a atual fonte de irritação para o casal Kirchner.

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