Enrique Marcarian/REUTERS
Enrique Marcarian/REUTERS

'O governismo é um time com campo inclinado a favor'

Governistas sempre saem com votos a mais e têm 78% de triunfos; vantagem de River e Boca em casa é menor

Entrevista com

Julia Pomares

Rodrigo Cavalheiro, correspondente em Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2015 | 03h00

A sensação de que o governismo disputa em vantagem eleições foi medida na Argentina. O Centro de Implementação de Políticas Públicas para a Equidade e o Crescimento (CIPPEC) analisou todas as votações regionais desde 1983 no país. Concluiu que o “candidato do comissário” tem em média 18 pontos porcentuais a mais que o rival, não importa o desempenho do governo. Embora isso possa beneficiar o kirchnerismo, a diretora do Programa de Instituições Políticas do CIPPEC, Julia Pomares, doutora pela London School of Economics and Political Science, ressalta que essa vantagem é própria do exercício do cargo, não de um partido.

Como se mede a vantagem de ser governo numa eleição?

Um estudo sobre eleições para governador desde o início da democracia, em 1983, mostra uma vantagem sistemática. O governo ganhou 78% das disputas. Em 2011, esse porcentual foi de 91%. Isso vem se tornando mais profundo. Há sete províncias sem alternância desde 1983. Há claramente uma vantagem de ser local, maior matematicamente que a de River Plate (62% de vitórias) e Boca Juniors (60%) por jogar em seu estádio. O governismo é um time com campo inclinado em seu favor.

De quanto é essa vantagem?

Um governista tem vantagem média de 18 pontos porcentuais a mais de votos, isolando fatores como o desempenho da administração, entre os quais está a influência da economia. Na América Latina, houve nos últimos anos várias reeleições em contextos de crescimento econômico, mas isolamos isso. Entre as razões para preferir quem está no poder estão o “quero votar porque o conheço mais” e o “não sei como a oposição vai fazer”. 

Isso representa uma vantagem para o kirchnerismo na eleição nacional?

Não necessariamente, mas provavelmente nas províncias que têm eleição para governador isso se reverta em votos para o candidato a presidente.

Por que a Província de Buenos Aires, da qual está excluída a própria capital, é tão importante?

Ela é desproporcionalmente maior que as outras. Ela tem 37% dos votos. As seguintes são a capital, Buenos Aires, Córdoba e Santa Fé e têm porcentagem de entre 7% e 9%. Essas províncias são as que elegem o presidente. Por ter uma população tão mal distribuída, o presidente é eleito pelas quatro províncias maiores e o Congresso é eleito pelas menores. 

A Província de Buenos Aires é decisiva só pelo peso numérico ou há algo no perfil do eleitorado ou no tipo de política?

Dentro dela há uma região metropolitana muito particular, com 1/4 da população da Argentina e prefeitos há muitos anos no poder. Alguns deixaram os cargos e ficaram seus filhos. Há um conceito de poder territorial maior.

Isso estimula o fenômeno dos "punteros", que estão em contato direto com os moradores trocando favores por apoio?

Essa lógica do poder territorial, do domínio de um grupo sobre um bairro, aparece em muitas províncias. Talvez a cidade de Buenos Aires seja a que menos sofra com isso.

Essa prática ficou mais comum com o kirchnerismo?

Não. O funcionamento da política da região metropolitana, essa lógica política territorial, é anterior ao kirchnerismo e se deu com outros partidos. 

A oposição está preocupada por não poder fiscalizar todas as urnas na Província de Buenos Aires. Tem razão?

A importância de um partido cobrir territorialmente as mesas de votação se deve ao tipo de voto. Na eleição nacional, a forma será por uma boleta (espécie de santinho com os candidatos de cada grupo), que o partido é responsável por garantir no quarto escuro no dia da votação (se quiser votar em presidente, governador e deputados de diferentes partidos, o eleitor tem de recortá-los e colocá-los na urna). Se na província há 35 mil mesas, é complexo ter 35 mil fiscais.

O kirchnerismo consegue isso?

Fizemos um levantamento sobre a eleição parlamentar de 2013, em que a Frente Renovadora, de Sergio Massa, derrotou a Frente para a Vitória, da presidente. Esses dois grupos estiveram em 90% das mesas. Todos os demais chegavam a 25%, 15% ou 40%. Para eles era muito difícil fiscalizar. 

Isso pode dar margem a fraude, como alerta a oposição?

É preciso ter cuidado ao falar de fraude. Essa é uma discussão que aparece uma semana antes da eleição e depois não é mais lembrada. Existe uma dificuldade de ter boletas de todos os candidatos, o que é diferente de mudar o resultado de uma eleição. 

Onde a vantagem governista é maior?

Onde há maior proporção de empregos públicos ou onde a economia depende mais do Estado do que do setor privado. Isso pode ser por clientelismo ou porque o mercado está menos desenvolvido, há várias formas de interpretar esse fenômeno.


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