ONU investiga 'descuido' em morte de brasileiro no Haiti

Corpo do gaúcho Rodrigo Klein deve chegar a São Leopoldo entre quatro e seis dias

Tahiane Stochero, do estadao.com.br,

03 de agosto de 2007 | 15h57

A Organização das Nações Unidas (ONU) abriu um inquérito para investigar as circunstâncias da morte do soldado brasileiro Rodrigo da Rocha Klein, de 21 anos, ocorrida em um acidente na noite de quinta-feira em Boston, região de Porto Príncipe. A investigação é apenas uma formalidade em mortes em missões de paz, mas deve apurar o "descuido" do soldado.   Klein, gaúcho de São Luiz Gonzaga, morreu por volta das 19h45 da noite de quinta-feira ao pisar em um fio de alta tensão no Ponto Forte Dourados, um prédio estreito de dois andares que era sede dos bandidos em Cité Soleil, região mais violenta do Haiti, até o início de fevereiro deste ano, quando o local foi conquistado pelos brasileiros. Segundo apurou o estadao.com.br, o soldado saiu por uma pequena abertura para uma área onde normalmente os militares não vão na laje do prédio e, ao tentar retornar, tropeçou em um fio elétrico da via pública. O fio tocou acima do calcanhar do pé do militar,que recebeu uma descarga elétrica. O soldado gritou por ajuda e tentou com o outro pé empurrar o fio. Klein, integrante do 7º contingente brasileiro na missão da ONU no Haiti (Minustah), chegou ao país em 15 de maio, quando houve revezamento de tropas. No momento do acidente, Klein vestia uniforme e usava coturno, bota de borracha dos militares. Ao ouvir gritos, o sargento Luiz Guilherme Fagundes Caetano, de 23 anos, tentou socorrer o soldado e acabou queimando as mãos e sofrendo algumas escoriações. O fio elétrico foi cortado pelos brasileiros com um alicate de metal. Os dois foram socorridos pelas tropas brasileiras, que os deslocaram para o Hospital Argentino da Missão da ONU. Klein morreu na hora. Abalado, o sargento continua internado, mas não corre risco de morte. Militares guatemaltecos, responsáveis pela parte jurídica da Minustah, realizaram ainda na noite de quinta-feira uma perícia no local. O Batalhão Brasileiro no Haiti também abriu uma investigação interna para apurar o acidente. O Haiti não tem serviço de distribuição de energia elétrica contínuo e a maioria da população com poder aquisitivo possui geradores. A ONU assumiu todas as despesas para o translado e o enterro do corpo que, a pedido da família, será na cidade gaúcha de São Luiz Gonzaga. Ao contrário do que foi divulgado pelo Exército, o corpo deve ser trazido ao País por um avião comercial fretado pelas Nações Unidas e deve chegar entre quatro e seis dias, após o término da investigação, informa o coronel Carlos Jorge, assessor de imprensa do Brasil no Haiti. Cumprindo regras internacionais, o corpo será embalsamado e conduzido em um caixão metálico. Contudo, o Brasil envia ao Haiti a cada três semanas um avião com suprimentos para as tropas. Se coincidir de o corpo estar liberado por ocasião de um destes vôos, pode ser que seja trazido pela FAB. De acordo com o coronel Carlos Jorge, assim que o comando brasileiro soube da morte, comunicou o 4º Regimento de Cavalaria Blindado, de São Luiz Gonzaga, onde o soldado servia desde 2004, que avisou a família durante a madrugada de sexta. Antes de deixar o Haiti, o corpo Rodrigo Klein deve ser homenageado em uma cerimônia padrão organizada pela ONU para todos os capacetes-azuis que morrem em missões de paz. A cerimônia deve ocorrer no pátio do Hospital Argentino, onde o corpo está guardado em uma espécie de necrotério. Este é o segundo brasileiro que morre na Minustah, mas é a quinta morte por acidente entre todas as tropas internacionais no Haiti somente neste ano. Em 7 de janeiro de 2006, o general gaúcho Urano Teixeira de Matta Barcellar, de 57 anos, foi encontrado morto no terraço do apartamento onde residia no Hotel Montana. Bacellar estava no comando da missão da ONU no Haiti desde 31 de agosto de 2005, quando assumiu em substituição ao também general brasileiro Augusto Heleno Ribeiro, e sua morte se transformou na primeira baixa sofrida pelo contingente brasileiro no país, confirmada oficialmente como suicídio. Brasil tem maior contingente em força de paz no CaribeAtuando há três anos no Haiti, o Brasil possui o maior número de militares na Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah), cerca de 1.200 homens. Composto por integrantes de 40 países, a missão foi criada pela ONU em fevereiro de 2004, após uma onda de protestos e violência em todo o país provocar a queda do presidente Jean-Bertrand Aristide.Desde o início, o Brasil tem liderado operações contra o crime organizado no país caribenho, pacificando os bairros mais violentos da capital, como Bel Air, Cité Militaire e Cité Soleil. Todos os chefes militares da missão foram brasileiros. Essa é a quinta missão da ONU desde 1993 no Haiti.

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