Oposição boliviana invade distribuidora de gás para o Brasil

Dirigente opositor diz que manifestantes ameaçam cortar fornecimento de usina ocupada em Tarija

Agências internacionais,

09 de setembro de 2008 | 14h18

Representantes civis da oposição ocuparam nesta terça-feira, 9, uma indústria distribuidora de gás natural para o Brasil na região do Chaco boliviano, segundo afirmou à agência France Presse um executivo da empresa Transierra, responsável pela administração da usina no Departamento (província de Tarija, ao sul do país). O dirigente opositor Felipe Mosa afirmou a uma emissora boliviana que os manifestantes ameaçavam cortar o o fornecimento do combustível para o Brasil. Consultada pelo estadao.com.br, a Petrobrás - uma das proprietárias da usina - não tinha informações sobre o incidente.    Veja também: Evo reforma gabinete e renova pasta do gás   "Grupos civis entraram na nossa usina de Taihuasi e foram enviados técnicos ao local para avaliar a situação e verificar possíveis danos" afirmou o assessor de Relações Institucionais da Transierra, Hugo Muñoz. A indústria está localizada no povoado de Villamontes, a 1.200 quilômetros ao sudeste de La Paz. A Bolívia envia cerca de 30 milhões de metros cúbicos de gás diariamente ao País.   A planta ocupada pertence à Petrobrás, à companhia francesa Total e à boliviana Andina. "Por enquanto, o fornecimento de gás não foi suspenso", assegurou à France Presse Jorge Boland, gerente comercial da Transierra. Ele também confirmou que o grupo opositor tomou a a usina. O Ministério de Minas e Energia do Brasil informou que está monitorando a crise boliviana, mas que até o momento o fornecimento de gás da Bolívia está normal.   "Os manifestantes não conseguiram fechar as válvulas pois acredito que se deram conta que isso poderia ser um risco para suas próprias vidas", declarou Leonardo Chiquié, diretor-jurídico da Superintendência de Hidrocarbonetos   Nesta terça-feira, o aumento dos bloqueios em rodovias que levavam à Argentina, ao Brasil e ao Paraguai ameaçava agravar os protestos opositores contra Evo. Havia desabastecimento de combustíveis e gás de cozinha em algumas regiões e os grupos opositores continuavam a ocupar escritórios públicos para pressionar o governo.   Uma rota no sul onde circula a maior parte do comércio com a Argentina estava cortada em vários pontos, com troncos e montes de terra. Outra via em Santa Cruz na qual passa grandes quantidades de soja também estava interrompida. Apesar disso, as autoridades brasileiras informaram, em Brasília, que o fluxo de pessoas e cargas entre os países funcionava normalmente na maioria dos postos limítrofes.   O inspetor Adenilson de Souza, da polícia rodoviária, assegurou que a passagem fronteiriça em Corumbá, principal rota comercial entre Brasil e Bolívia, estava com o fluxo normal. Houve problemas na ponte que liga a cidade brasileira de Brasiléia, no Acre, à cidade boliviana de Cobija, no noroeste. Manifestantes opositores impediram a passagem durante o fim de semana.   As regiões de Santa Cruz, Beni e Pando, no leste, e Tarija estavam isoladas do resto do país. "Não podemos sentar para conversar se não vemos uma atitude sincera do governo, que deve manifestar-se sobre a devolução do Imposto Direto de Hidrocarbonetos", disse o secretário de Relações Internacionais do governo de Santa Cruz, Juan Carlos Urenda, à emissora Fides. O líder cívico Branco Marincovik acrescentou que a única saída para o conflito é que o governo desista de sua intenção de aproveitar seu projeto constitucional em referendo.   Posição brasileira   A embaixada do Brasil em La Paz pediu nesta terça ao governo da Bolívia que adote as medidas necessárias para manter liberados os postos de fronteira entre os dois países, informou a assessoria de imprensa do Ministério das Relações Exteriores. O Itamaraty ainda avaliou as ameaças da oposição boliviana de cortar o fornecimento de gás natural para o Brasil, por meio de ataques às estações de bombeamento do Gasoduto Brasil-Bolívia (Gasbol), como "rumores infundados."   Garantia de La Paz   O governo boliviano planeja honrar seus compromissos de venda de gás com a Argentina e o Brasil e ampliar o fornecimento para o Paraguai e o Uruguai, mas para tanto espera certificar suas reservas prováveis do combustível, informou Estratégia Boliviana de Hidrocarbonetos a (EBH) em comunicado nesta terça.   Para os próximos 20 anos, o país precisa de "17,78 trilhões de pés cúbicos de gás (498 bilhões de metros cúbicos) para cumprir os compromissos atuais de fornecimento, os projetos de expansão do consumo interno e industrialização", acrescentou o documento, divulgado pelo jornal La Razón.   Aeroportos ocupados   Grupos civis de direita ocuparam um aeroporto na região da Amazônia boliviana e escritórios públicos em outros pontos do país, em uma nova tentativa de colocar em vigor os governos autônomos nos Departamentos de Beni, Santa Cruz e Tarija, informou a imprensa local, segundo a France Presse.   Foto: Efe Funcionários do governo de Beni e membros da União Juvenil - braço das organizações civis - tomaram as instalações do aeroporto e a pista de aterrissagem, anunciou a rádio Erbol.   O presidente do comitê cívico de Trinidad, Enrique Monasterios, declarou que os manifestantes reivindicam a autonomia dos Departamentos e a devolução dos recursos provenientes da exportação de gás.   O aeroporto de Pando, no norte do país, também está inoperante desde o fim de semana, quando foi ocupado por opositores do governo de Evo Morales.   Por sua vez, um grupo de mulheres tomou nesta terça os escritórios da Superintendência de Hidrocarbonetos da cidade de Tarija, de acordo com um comandante regional da polícia boliviana, coronel Reynaldo Iturri. Jovens universitários, que ocupam a prefeitura, e membros da União Juvenil tentavam ocupar a força os escritórios públicos dos Impostos.   Choques   Em Santa Cruz, policiais e militares bolivianos enfrentaram opositores que tentaram ocupar escritórios estatais. Os agentes utilizaram gás lacrimogêneo e balas de borracha para repelir os manifestantes que buscavam tomar a sede de um órgão responsável pelos impostos na Praça das Armas de Santa Cruz, segundo informaram vários canais de televisão.   O centro do Departamento, reduto da oposição a Evo, foi cenário de uma batalha campal, com jovens entrincheirados e lançando pedras contra as autoridades. Um relatório oficial da Administradora Boliviana de Estradas (ABC) assinalou que já são quase 30 os pontos bloqueados no oriente e no sul, onde há várias cidades isoladas por terra.    Evo reiterou na segunda-feira seu chamado ao diálogo, porém descartou devolver os recursos tomados dos orçamentos regionais para financiar um bônus vitalício aos idosos. Além disso, disse que o Congresso deveria decidir sobre o referendo constitucional - a situação domina a Câmara dos Deputados, porém o Senado tem maioria oposicionista.     (Com Denise Chrispim Marin, da Agência Estado)   (Matéria atualizada às 19 horas)  

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