'Oposição venezuelana ainda busca ação comum'

Ex-coordenador da coalizão antichavista diz ao ‘Estado’ que estratégia de exigir saída de Maduro expôs divisão de partidos

Guilherme Russo, ENVIADO ESPECIAL / CARACAS

30 de agosto de 2014 | 19h00

Secretário executivo da Mesa da Unidade Democrática (MUD), coalizão partidária que congrega a oposição ao chavismo, desde sua fundação, em janeiro de 2008, o político venezuelano Ramón Guillermo Aveledo deixou o cargo que ocupou por mais de cinco anos em 30 de julho. Em entrevista ao Estado, Aveledo confirmou que deixou o cargo em razão do desgaste causado pelo movimento “A Saída”, que exigia a renúncia do presidente Nicolás Maduro por meio de violentos protestos ocorridos a partir de fevereiro, nos quais pelo menos 43 manifestantes e policiais morreram. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Por que o sr. deixou a liderança da Mesa da Unidade Democrática?

A tarefa do secretário é como a de um zelador, nas brigas de condomínio. A base do êxito dessa função é a confiança por parte de todos os membros da aliança e, nos últimos tempos, meu nome estava associado à polêmica pelos pontos de vista da oposição – aos quais eu não sou imparcial. Então, me pareceu que o melhor era deixar o cargo para que se encontrasse uma fórmula que pudesse estabelecer essa função mediadora. Continuo sendo um militante da MUD. Apoio a unidade e suas políticas. E agora presto apoio aos nossos parlamentares, nossos prefeitos e nossos vereadores.

Quais as principais dificuldades que o sr. enfrentou no cargo?

Há dificuldades de diferentes tipos. Umas que são próprias da situação política: temos um sistema constitucional com regras, mas temos um sistema político que nem sempre está em sintonia com o sistema constitucional. Antes, o presidente (Hugo) Chávez era um líder carismático e o regime político funcionava sobre a base dessas regras, as regras da legitimidade carismática. Por isso, agora que Chávez morreu, o presidente (Nicolás) Maduro ocupa seu lugar constitucional, mas não ocupa seu lugar político. E há todas essas dificuldades no centro do próprio governo, do próprio sistema, para funcionar. Então, as primeiras dificuldades que a aliança e eu, como seu coordenador, tivemos de enfrentar foram a de encontrar uma fórmula para ter uma ação política concertada, comum, cujo objetivo é a mudança pela via democrática num contexto que é formalmente democrático, mas politicamente não respeita as regras – tem suas próprias regras, com uma vocação autoritária, uma vocação hegemônica. No centro da MUD, há as dificuldades próprias de uma aliança ampla, diversa, em que há partidos de distintas origens ideológicas, com distintas histórias e com uma experiência mais de confronto e competição que de cooperação. Então, fazer com que esses partidos se acostumem com uma dinâmica de cooperação e de concertação, como ocorreu nesses cinco anos, também foi fonte de dificuldades. 

Sua demissão da MUD teve algo a ver com o movimento “A Saída”, que exigia a renúncia de Maduro?

Com certeza houve uma relação, porque 2014 é o primeiro ano desde que a MUD existe em que não há um evento eleitoral prefixado – o que era uma oportunidade e um desafio, porque as eleições têm sido o grande elemento mobilizador dos setores democráticos venezuelanos e é um caminho de participação que nós conhecemos. Então, para nós, era um objetivo manter a unidade e fazê-la eficaz em um ano sem eleições. Todos os venezuelanos estão sofrendo com a escassez, todos estão sofrendo com a inflação, todos estão sofrendo com a insegurança e nossa avaliação foi que, apontando esses temas, falaríamos com todos os venezuelanos. Uma parte de nós (da MUD), uma minoria, mesmo tendo participado das discussões, tomou a decisão de propor essa outra tática. Isso começou simultaneamente com os protestos estudantis que tinham começado por motivos estudantis, que resultaram num movimento significativo, que esteve vários meses em operação. E um movimento popular importante se formou, que esteve, salvo em algumas cidades da Venezuela, assentado nos estudantes da classe média. E na classe média há muito desalento pela diminuição drástica de sua qualidade de vida. Que isso pudesse resultar numa mudança política rápida é outra discussão e acredito que, partir desse pressuposto, é politicamente equivocado. 

“A Saída” abalou a MUD?

Os partidos que estiveram com “A Saída” são membros da MUD. Mas a MUD como bloco, que foi solidária diante das violações dos direitos humanos e das perseguições e processos judiciais injustos, não apoiou essa política de “A Saída”. 

Então, se pode dizer que houve uma dissensão?

Sim, pois se tratava de uma proposta política distinta à que a MUD formulou. Mesmo quando protestar na rua não está excluído da estratégia geral da MUD, é certo que nós claramente buscamos uma mudança que seja feita dentro dos marcos constitucionais e legais. Se bem que os porta-vozes de “A Saída” nunca propuseram explicitamente nada inconstitucional, porque, ao fim e ao cabo, ao pedir a renúncia do presidente, ele pode renunciar ou não. Assim mesmo, o contexto em que ocorreram as coisas, o modo como se desenvolveram e os acentos políticos desse discurso podem se prestar a uma confusão e criar a sensação, criar a ideia de que podia haver uma via rápida para a mudança de governo. E se nós queremos mudar o piloto da nave, queremos mudar o piloto na próxima parada constitucional.

Mas “A Saída” teve a ver com sua decisão de renunciar à secretaria executiva da MUD?

Bom, creio que é muito importante manter a unidade, creio que são muito maiores as coincidências dos setores opositores do que suas divergências, que a hierarquia das coincidências é muito maior, e também constato que os setores que promoviam “A Saída” já não tinham confiança na minha condução. E eu me sentia incapacitado de falar com todos em plano de igualdade e, portanto, como creio que a unidade de tudo é muito importante, pensei que o melhor era dar um passo para o lado sem, com certeza, deixar de apoiar as políticas da MUD, que apoio e, depois da minha retirada da secretaria executiva, houve vários pronunciamentos da MUD que têm todo meu respaldo, sou completamente solidário.

E por que não nomearam ainda um outro secretário?

Porque não se puseram de acordo e porque preferiram, me parece que corretamente, a política aos nomes. Puseram-se de acordo com uma política comum e depois resolverão quem será o secretário executivo. Com certeza há partidos a favor de uma secretaria forte, outros, de uma secretaria mais fraca, mais coordenador e menos política. 

Como o sr. qualifica a sua secretaria? Foi forte ou fraca?

Sempre imaginei a secretaria como a quilha do barco, não o timão. A quilha permite que o barco mantenha o rumo que o timão decidiu e o timão é controlado pelos partidos. Com certeza, têm mais peso nisso os partidos que têm mais votos, isso é natural. E a secretaria era claramente a quilha. Tocou-me uma etapa na qual era necessário produzir os acordos políticos para a eleição de candidatos, produzir regras, porque não havia isso. E, nesse sentido, pode-se dizer que foi forte, porque coube a mim levar adiante decisões construtoras da MUD. Na verdade, quando aceitei ser secretário apresentei duas condições: não ser candidato a nada e não ser o porta-voz. No começo, os porta-vozes foram os secretários dos partidos, mas, pela dinâmica dos acontecimentos, acabou ocorrendo que, cada vez mais, o secretário falasse em nome de todos e isso foi se caracterizando – acabei porta-voz como uma derivação dos fatos, como parte de um desenho.

Se Henrique Capriles tivesse vencido as eleições presidenciais, a situação estaria melhor agora na Venezuela?

Sim, porque o governo mudaria de rumo. Haveria dificuldades econômicas desde o começo, porque isso que estamos vivendo é consequência de 15 anos, que então seriam 14, desse governo. 

Outra pessoa lidaria com os mesmos problemas, simplesmente?

Mas com outro programa e uma clareza muito maior sobre os rumos. Agora mesmo, todos no governo sabem o que se deve fazer, mas ninguém se atreve a dizer, porque todos estão se fiscalizando mutuamente para fazer com que o outro pague o custo das medidas, então, se fiscalizam mutuamente em nome do “legado de Chávez”. Ou seja, os que apareciam como a direita endógena, a direita do oficialismo, há um ano, hoje em dia aparecem como fiscais da ortodoxia. O governo não se atreve a reconhecer o fato de que seu modelo é inviável. E o que estamos vendo hoje são as demonstrações da inviabilidade do modelo e a incapacidade do governo de redefinir o rumo e dizer “bom, estamos equivocados”. Porque você sabe que as revoluções têm uma tendência natural à infalibilidade, as revoluções são infalíveis. Os revolucionários que fazem autocríticas se equivocam; as revoluções, não. Então, é impossível admitir equívocos sem, digamos, deslegitimar a revolução. Então, é necessário justificar, essa é a dinâmica própria das revoluções, que os erros foram por falta de revolução. Então, é com mais revolução que se solucionam (os problemas). E isso termina produzindo a radicalização acumulativa. Os radicalismos vão se acumulando e os erros se acentuam, como produto de um erro original no epicentro. Assim como na revolução marxista parte do diagnóstico é que o mal está nos meios de produção privados, na luta de classes, que é sua consequência, tudo o que trate de corrigir esse defeito, sempre o acaba ampliando. Eles (os chavistas) estão agora nessa disjuntiva terrível, que é que, ou reconhecem que a premissa está equivocada, com o que a revolução acabaria, ou que devem fazer ajustes e emendas para que tudo seja mais revolucionário. Um exemplo está na visão que se tem agora dos problemas do consumo: “Não é que há escassez, não é que há improdutividade, não é que há inflação; é que há uma guerra econômica, contrabando, consumo excessivo”. 

Capriles continua o favorito da oposição hoje?

Bom, ele foi nosso candidato duas vezes. Isso o fez uma figura em que estão postos os olhares e também as exigências. Ele teve posição de liderança muito importante, é o governador do maior Estado que a MUD tem. Se ele será ou não candidato presidencial dependerá das eleições primárias que sejam feitas em seu momento. Todos os líderes têm altos e baixos na opinião pública. O importante é que o que ele construiu com seu governo e candidaturas presidenciais é um ativo de toda a MUD.

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