Opositores ocupam outro campo petrolífero na Bolívia

Manifestantes invadiram distribuidora de gás para o Brasil na terça; grupos pró-Evo prometem reação

Agências internacionais,

10 de setembro de 2008 | 12h10

Opositores bolivianos tomaram o controle de outro campo petrolífero que abastece os países vizinhos na madrugada desta quarta-feira, 10, no clima de crescente tensão no país que enfrenta uma onda de protestos contra o governo do presidente Evo Morales. Uma série de invasões violentas de agências e empresas públicas da cidade de Santa Cruz e uma tentativa fracassada de interromper a exportação de gás natural ao Brasil na terça-feira, foram classificadas como "golpe cívico contra a unidade e a democracia na Bolívia", afirmou o governo.   Veja também: Bolívia denuncia início de 'golpe civil' da oposição   Na terça, um grupo da oposição boliviana ocupou a instalação de uma distribuidora de gás natural para o Brasil na região do Chaco, em Tarija, enquanto em outros quatro departamentos (Estados) do país, manifestantes continuavam a tomar edifícios públicos e bloquear estradas. A prefeita da cidade de Boyuibe, Alejandría Vacaflor, afirmou que testemunhou a tomada do campo petrolífero da empresa nacionalizada Chaco, ligada ao grupo inglês British Petroleum (BP), responsável por parte do abastecimento diário da Argentina. Alejandría assinalou a uma emissora de TV que os líderes civis tomaram "pacificamente" o local.   O ministro de Hidrocarbonetos recém-empossado, Saúl Avalos, confirmou nesta quarta "o fechamento de válvulas" de gás, mas assegurou que as exportações de gás para o Brasil, Argentina e para o mercado interno estão garantidas. As instalações invadidas na terça pertencem à franco-brasileira Transierra e ficam no vilarejo de Villamontes, a cerca de 1.200 quilômetros de La Paz. O gasoduto que passa pela região de Villamontes leva mais de 17 milhões de metros cúbicos de gás diariamente ao Brasil. A Transierra - empresa na qual a Petrobrás tem participação de mais de 40% - transporta o gás proveniente dos campos de San Alberto e San Antonio.   Grupos opositores continuam a saquear prédios do governo nesta quarta, como o escritório da Empresa Nacional de Telecomunicações (ETI) na região de Santa Cruz. O ministro da Presidência, Juan Rampon Quintana, assegurou que o governo não usará os militares para reprimir a violência, para que Evo não seja responsabilizado por possíveis vítimas de confrontos. Os sindicatos campesinos que apóiam Evo, afirmaram que iniciarão nesta quarta um bloqueio de estradas e cercarão a cidade de Santa Cruz.   O dirigente dos produtores de coca Julio Salazar anunciou aos veículos de imprensa de Cochabamba que "a paciência dos grupos sociais com grupos opositores acabou", e que a oposição liderou um "golpe" de Estado, assim como acusou o governo. Salazar afirmou que o objetivo do bloqueio é defender a democracia e a unidade do país.   O ministro Alfredo Rada responsabilizou o governador de Santa Cruz, Rubén Costas, e Branko Marinkovic, líder cívico desse rico Departamento, pela onda de violência alimentada por "grupos fascistas" que tomaram e saquearam várias instituições públicas, entre as quais a sede regional da TV estatal. "Denunciamos diante do país e da comunidade internacional que aquilo que vinha sendo arquitetado com apoio interno e externo, que vinha sendo preparado desde as organizações cívicas e os governos regionais da oposição hoje se materializou", afirmou Rada ao final de uma reunião noturna de emergência entre Evo e seu gabinete de chefes militares e policiais na terça.   Segundo Rada, o governo, que pretende realizar um referendo para colocar em vigor uma nova Constituição de viés socialista, "não vai cair nas provocações fascistas", mas sim "responderá com seriedade e também com firmeza democrática e constitucional". "Ao contrário do que vem sendo dito em Santa Cruz, o governo nacional não decretará nenhum tipo de estado de sítio. As vidas dos 1 milhão de moradores (dessa cidade) e suas liberdades não serão alteradas por causa de 500 ou 600 malandros", afirmou na mesma entrevista coletiva o ministro boliviano da Defesa, Walker San Miguel.   Há mais de uma semana grupos opositores do presidente Evo Morales estão organizando ações como ocupações de estradas, invasões de edifícios públicos e tomadas de postos da fronteira com o Brasil, a Argentina e o Paraguai em cinco departamentos opositores - Santa Cruz, Tarija, Beni, Chuquisaca e Pando. O objetivo é protestar contra o projeto de uma nova Constituição, aprovado por parlamentares governistas em novembro, que Evo pretende referendar em votação em dezembro. Os manifestantes exigem, ainda, a restituição de parcela do imposto sobre gás e petróleo, que era repassada para os governos, mas foi confiscada pelo governo para financiar uma pensão nacional para idosos.   Os protestos abrem mais um capítulo da disputa entre o governo Evo e a oposição regional. Eleito em 2005 prometendo refundar a Bolívia, Evo teve seu mandato ratificado no referendo revogatório de agosto com 67% dos votos e agora quer acelerar suas reformas. A oposição resiste e exige que o governo reconheça os estatutos autonômicos aprovados em consultas populares em quatro departamentos.

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