Padre argentino vê cumplicidade da Igreja na ditadura

Ruben Capitanio defende desculpa mais 'clara' da instituição por proximidade com regime militar na 'guerra suja'

Reuters,

15 de outubro de 2007 | 11h07

O padre argentino Ruben Capitanio diz que a Igreja Católica argentina precisa melhorar a maneira como se desculpa pela proximidade que manteve com o regime militar (1976-83) durante a chamada "guerra suja". Capitanio depôs contra seu ex-colega de clero Christian von Wernich, condenado na semana passada por seu envolvimento em torturas, seqüestros e assassinatos de opositores da ditadura, que matou entre 11 mil e 30 mil pessoas. A Igreja já manifestou arrependimento pelos crimes dos padres, mas grupos de defesa dos direitos humanos querem um "mea culpa" mais amplo, pois consideram que a cúpula eclesiástica deu apoio ao regime militar e silenciou sobre suas atrocidades. A Conferência Episcopal Argentina citou um pedido de perdão que remonta a setembro de 2000. Mas Capitanio, um pároco de 59 anos, disse por telefone que a Igreja deveria se desculpar de forma mais clara. Ele e Von Wernich estudaram no mesmo seminário, mas não se conheciam bem. Von Wernich foi capelão da polícia da Província de Buenos Aires, notória pela violência política durante a ditadura.  Por que o senhor quis depor no julgamento? Parece-me que um cristão, especialmente um padre, deve querer a reconciliação em seu país. Em um documento de 1981, os bispos disseram que a busca pela verdade e a justiça seria essencial para alcançar a verdadeira reconciliação, então isso parecia um passo positivo no sentido de descobrir a verdade.  O sr. acha que a verdade apareceu nesse julgamento? Sim, sem dúvida. A verdade foi dolorosamente demonstrada, e para os cristãos essa dor se agravava pela vergonha com o fato de que um dos nossos irmãos, um padre, havia se envolvido nesses crimes.  Entendo que durante o julgamento o sr. pediu perdão em nome da Igreja. Por que sentiu tal necessidade? Porque estou convencido de que, como Igreja, ainda devemos desculpas ao povo argentino. Muitos dos nossos membros não defenderam a vida humana, que é a responsabilidade fundamental da Igreja. Durante a ditadura, as assembléias episcopais enviaram cartas (privadas) aos militares, dizendo que eles estavam seqüestrando e matando pessoas. Mas esses mesmos oficiais eram recebidos pela Igreja, enquanto as vítimas da ditadura e seus parentes que buscavam ajuda não eram.  O pedido de perdão feito em 2000 pela Igreja não bastou? Isso foi feito usando a linguagem eclesiástica e de forma tão solene, durante um evento religioso, que as pessoas não entenderam que a Igreja estava pedindo perdão.  O que mais o sr. critica sobre as ações da Igreja? A Igreja não protegeu seus próprios filhos. Tínhamos leigos, seminaristas, freiras, monges, padres e até dois bispos que foram seqüestrados, presos, torturados e mortos. A Igreja é a única mãe que conheço que não foi procurar seus filhos. Como pode a Igreja não investigar quando seus bispos morrem de forma suspeita?  O sr. acha que Von Wernich merecia ser condenado à prisão perpétua? Sim, acho que seria impossível sob a lei argentina encontrar alguém responsável por tantos crimes e não impor a pena máxima.

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