Para analista, respaldo de Lula a Mujica 'é grave e incomum'

É a 2ª vez que brasileiro tenta influenciar disputa presidencial no país vizinho; 2º turno acontece no domingo

O Estado de S. Paulo

25 Novembro 2009 | 08h01

A decisão atribuída ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva de declarar abertamente sua preferência pelo candidato uruguaio José Mujica é "grave, incomum e pouco prudente", segundo o professor de Relações Internacionais da Unesp, Clodoaldo Bueno. "Se o presidente não desautorizar a declaração do Olívio (Dutra, dirigente petista), terá sido uma interferência política inadequada na política uruguaia", disse Bueno. "Um país que quer ter liderança e influência na região, tem de ser neutro e prudente. Não pode ficar refém de discursos circunstanciais."

 

Pela segunda vez em seis anos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomou partido por um candidato à presidência do Uruguai. Tal como havia feito em 2003, quando apoiou o então candidato socialista Tabaré Vázquez, Lula declarou apoio ao ex-guerrilheiro tupamaro José "Pepe" Mujica, da governista coalizão Frente Ampla, de centro-esquerda, que no domingo disputará o segundo turno das eleições contra o ex-presidente Luis Alberto Lacalle, do Partido Nacional, de centro-direita.

A declaração de apoio foi dada por Olívio Dutra, ex-governador do Rio Grande do Sul, ex-ministro e atual presidente do PT gaúcho, que se reuniu com Mujica durante duas horas no Hotel NH Columbia, em Montevidéu. "Lula tem a certeza de que em um segundo governo da esquerda uruguaia, comandada por Mujica, a relação entre nossos povos será mais produtiva e rica, especialmente na área do Mercosul", disse Dutra. Segundo ele, Mujica "é uma figura emblemática, carismática, capaz de trabalhar na diversidade e pluralidade de ideias e construir consenso", além de "partilhar semelhanças" com o presidente Lula, "que é uma figura com grande capacidade de diálogo".

Apesar de incomum, o apoio de presidentes brasileiros a candidatos de países vizinhos já ocorreu no passado, de acordo com José Augusto Guilhon de Albuquerque, filósofo e sociólogo especialista em relações internacionais. Ele diz que é normal um presidente "insinuar seu apoio e deixar o tema reverberar na imprensa", mesmo evitando "subir no palanque". Guilhon lembra que Fernando Henrique Cardoso também sinalizou apoio à reeleição do argentino Carlos Menem nos anos 90.

 

Diante do respaldo de Lula, a oposição no Uruguai optou pelo silêncio. Assessores de Luis Lacalle explicaram por telefone ao Estado que nem o candidato nem o partido comentariam o assunto. Mujica é o favorito e conta com cerca de 48% das intenções de voto. Lacalle teria entre 40% e 42%. Mujica, em diversas ocasiões, declarou que se identifica mais com Lula do que com o bolivarianismo do presidente venezuelano, Hugo Chávez.

Em 2003, o presidente Lula irritou o então presidente uruguaio Jorge Batlle ao participar de um comício informal com o então líder oposicionista Tabaré Vázquez, um socialista moderado que era candidato nas eleições presidenciais uruguaias daquele ano.

Lula participou de um ato político da sacada da prefeitura de Montevidéu, acenando para centenas de militantes. Na época, o chanceler uruguaio, Didier Opertti, afirmou que a participação de Lula foi "infeliz" e "poderia ter sido evitada". O então vice-presidente do Uruguai, Luis Hierro López, disse que Lula havia "politizado de forma indevida o encontro com o líder da oposição".

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