Para analistas, Chávez será 'mais cuidadoso' após eleições

Opositores venceram em regiões estratégicas; presidente venezuelano deverá ser 'mais amigável' com rivais

Gabriel Pinheiro, do estadao.com.br,

24 de novembro de 2008 | 20h05

O governo do presidente Hugo Chávez sofreu um revés nas eleições regionais venezuelanas. No último domingo, os candidatos do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), legenda de Chávez, venceram em 17 dos 22 Estados em jogo, mas os opositores ganharam em quatro disputas importantes, incluindo a prefeitura de Caracas, capital venezuelana. Para analistas, isso refletirá diretamente na postura do presidente, que chegou a dizer na campanha eleitoral que era o seu destino que estava em jogo. "Chávez sairá mais cuidadoso, tanto na política externa quanto interna", disse Héctor Luis Saint Pierre, professor de História da Universidade Estadual Paulista (Unesp). No mesmo sentido, a cientista política Cristina Pecequilo avalia que agora o líder venezuelano "caminhará com mais sutileza."   Veja também: Ouça entrevista com a cientista política Cristina Pecequilo  Veja galeria de imagens da votação na Venezuela  Enviada especial conta clima das eleições  Cronologia do processo eleitoral venezuelano    O resultado de domingo deu aos antichavistas o governo das quatro regiões mais povoadas do país e com maior peso econômico e estratégico - os Estados Zulia, Miranda e Carabobo e a prefeitura maior de Caracas, segundo posto mais importante no país depois da Presidência e que foi a grande surpresa dessa jornada eleitoral. Além disso, a oposição controlará Táchira, nono Estado na escala demográfica, mas importante por ser a principal rota ligação à Colômbia. A população desses Estados somadas é de 12 milhões de habitantes, que corresponde a cerca de 44% dos 28 milhões dos habitantes do país.   "A mudança que permitiu a vitória dos opositores de Chávez em cargos importantes como este de Caracas é relacionada justamente à fatores de desagregação social e de crise", avalia Cristina. "A partir do momento que um momento que um governo populista não consegue mais oferecer o que promete a seus clientes, a tendência é que a população procure outros candidatos", continua. Saint Pierre aponta que no caso de Caracas, o alto índice de violência ajudou a oposição, além da "falta de investimento nacional."   Relação com oposição   Os especialistas indicam que não há clareza nas políticas dos opositores venezuelanos. "A oposição é basicamente antichavista, não há uma linha de oposição clara. Falta chegar a uma posição política", disse Saint Pierre. Para ele, não há uma "proposta consistente" entre os adversários de Chávez. Cristina aponta que "não existe clareza se a oposição irá assumir uma postura muito agressiva" e diz que não se sabe se a oposição "vai tentar assumir o papel de Chávez" nas localidades onde venceram.   No entanto, os analistas sinalizam para um melhor entendimento entre governo e oposição para o futuro. "O novo prefeito já está tentando uma aproximação, para tirar a prefeitura de Caracas da situação na qual se encontra", destaca Saint Pierre. Cristina lembra que durante a campanha os opositores falaram sobre "uma espécie de acomodação para que o país possa se unificar novamente", mas ainda é preciso esperar para ver se isso se concretizará quando os antichavistas chegarem ao poder.   "Houve uma vitória importante da oposição, embora o governo tenha retido uma maioria significativa em termos de legislativo, vai ter que haver uma certa acomodação", continua a cientista política. Saint Pierre ressalta, porém, que o presidente venezuelano teve "uma vitória maior do que se esperava" e que o resultado não foi tão negativo.   Petróleo   A recente baixa no preço do petróleo, um dos pilares de sustentação das políticas chavistas, também afetou o governo do presidente venezuelano e o desempenho de seu partido na votação, segundo os especialistas. "O grande problema do chavismo é contar com as receitas do petróleo para manter suas políticas sociais assistencialistas", explica Cristina. "A partir do momento que você não tem receita suficiente para mantê-las, acontece justamente o que estamos vendo agora: uma certa desestabilização e insatisfação do povo", acrescenta.   Saint Pierre destaca a falta de investimento no setor estratégico. "Chávez não aproveitou o momento em que o petróleo estava num bom preço para fazer investimentos internos", diz o professor. "Ele nacionalizou a PDVSA [petrolífera estatal], mas não fez investimento no setor, não fez investiu em tecnologia."   Levantando um outro problema, o professor destaca que "houve compra de armamentos que ele fez quando o barril estava alto, agora o preço caiu. Eu não sei como ele resolverá isso", afirma ele, referindo-se aos acordos bilionários em armamentos que o governo Chávez fechou com a Rússia nos últimos meses.   Próximos passos   Nesta segunda-feira, o chefe de Estado venezuelano reconheceu a vitória dos opositores - que durante a campanha eleitoral havia ameaçado várias vezes - e os "parabenizou" pelo desempenho nas urnas. Para Saint Pierre, isso é um sinal de que Chávez usará daqui para frente uma retórica "um pouco mais amigável e positiva em relação à oposição". "Ele precisa se consolidar para construir a imagem de uma Venezuela um pouco diferente e já preparar o país para a situação de um novo presidente norte-americano", avalia o professor.   "Chávez ainda controla a Venezuela, o país está sob seu controle, basicamente a base das Forças Armadas. Ele tem um controle que Evo Morales até a metade do ano não tinha", acrescenta o especialista, descartando uma possível crise com a oposição como a que o presidente boliviano enfrentou recentemente.   Sobre a relação bilateral entre Estados Unidos e Venezuela no governo do presidente americano eleito Barack Obama, os analistas mostram otimismo. "Esse relacionamento bilateral normalmente influencia na política interna da Venezuela. A tendência parece-me ser, pelo menos nesse curto prazo, para uma acomodação", conclui Cristina.   Para Saint Pierre, com Obama "fica pouca margem de manobra para uma retórica de confronto como a que vinha cultivando Chávez. Aquele discurso se aplicava bastante a Bush, que tinha uma posição muito parecida a de Chávez". Em relação à América Latina, o especialista acredita que daqui para frente "Chávez terá que procurar um diálogo mais construtivo com seus vizinhos, começando pela Colômbia, e evitar o confronto."

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