Para especialistas, guerra não interessa a ninguém

Conflito na América Latina abalaria a visão do mundo de que a região é estável e daria fôlego a guerrilha

Marcos Guterman, do estadao.com.br,

04 de março de 2008 | 19h43

Uma guerra entre Equador e Colômbia, como resultado da incursão colombiana em território equatoriano, é altamente improvável, pela simples razão de que não interessa a nenhuma das partes - nem à Venezuela, segundo especialistas ouvidos pelo estadao.com.br.   Veja também:  Dê sua opinião sobre o conflito   Por dentro das Farc  Entenda a crise entre Colômbia, Equador e Venezuela  Histórico dos conflitos armados na América do Sul   Farc tentavam obter material radioativo, diz Colômbia Venezuela anuncia fechamento da fronteira com a Colômbia Lula pede investigação da OEA sobre crise Colômbia-Equador Análise: 'É possível que as Farc se desarticulem'   Ouça relato de Expedito Filho, enviado especial ao Equador    "Há muita coisa em jogo, não seria do interesse de ninguém e não há apetite entre os militares ou a opinião pública em nenhum desses três países", disse ao estadao.com.br Michael Shifter, do Inter-American Dialogue, grupo de estudos dos EUA sobre América Latina. Para Luis Fernando Ayerbe, professor de Relações Internacionais da Unesp, e Ricardo Sennes, professor de Relações Internacionais da PUC-SP, a América Latina é vista em todo o mundo como uma região estável, motivo pelo qual um conflito seria desastroso. "Uma guerra abalaria a imagem do continente e daria fôlego a uma guerrilha enfraquecida, o que seria um ato de insanidade política", disse Sennes.   Shifter disse que é preciso cautela, porque "ações e reações podem adquirir uma dinâmica própria, e ninguém sabe onde isso pode parar", mas, para ele, a guerra é uma perspectiva remota também porque houve uma atuação diplomática rápida para acalmar as tensões. O papel do Brasil, nesse caso, é "crítico", segundo o especialista americano.   "Aos olhos dos presidentes da Venezuela, da Colômbia e do Equador, o governo Lula tem um bocado de credibilidade e está bem posicionado para desempenhar o papel de mediador honesto e ajudar a reduzir os choques", disse Shifter. Ayerbe concorda, e lembra que é da tradição brasileira atuar como negociador dentro dos campo diplomático e em respeito a mecanismos regionais. Mas não será fácil. "Há muitas paixões em jogo", afirma Shifter, "e este será um teste real para o governo Lula, coisa própria de quem quer ser potência regional."   O caso específico da Venezuela é particularmente agudo, porque ela atua como um elemento incendiário no conflito. "Houve uma politização do evento, por parte da Venezuela, muito mais rápida do que a reação do Equador", afirmou Sennes, para quem isso é um sinal de que há muitas outras dimensões em jogo. Para ele, a Colômbia ajudou a piorar o quadro, ao não ter feito um pedido categórico e imediato de desculpas, na ONU e na OEA. No entanto, os analistas concordam que Hugo Chávez daria um tiro no pé se insistisse na retórica belicosa. "Seria auto-destrutivo", comentou Shifter. "Chávez já está com crescentes problemas domésticos, e não há disposição na Venezuela para uma escalada militar. Chávez sabe disso e vai recuar."   Ayerbe acrescenta que a Venezuela não tem como enfrentar a Colômbia em termos militares, e afirma que os dois países têm um histórico de proximidade que transcende governos de turno. "Se houver alguma racionalidade dentro do governo de Chávez, não a Venezuela não entrará em conflito com a Colômbia."   Apesar das perspectivas otimistas para a resolução da crise, o fato é que a ação colombiana revelou uma série de questões de fundo ainda não inteiramente compreensíveis. Uma delas é que, subitamente, os impasses legais típicos da chamada "guerra ao terror", antes vistos como estranhos à América Latina, passaram a fazer parte do horizonte do continente.   Ayerbe lembra que todo o discurso colombiano vai no sentido de vincular Equador e Venezuela às Farc, grupo tido como terrorista pela Colômbia e pelos EUA. Isso respeitaria a lógica da "guerra ao terror" - isto é, justificaria a ação extraterritorial porque o terrorismo igualmente não enxerga fronteiras. Se for assim, trata-se de algo inédito em tempos democráticos na região.   Para Sennes, no entanto, mesmo isso ainda pode ser enquadrado na agenda tradicional da região, como um incidente grave de fronteira, em que não foram respeitados os acordos "tácitos" comuns para acomodação entre países - suspeita-se, por exemplo, que o Brasil faça vista grossa para a atuação das Farc em seu território, desde que a guerrilha não vá longe demais.   Ayerbe especula que a idéia de Bogotá, ao correr conscientemente o risco de aparecer como agressor ao violar a soberania de um vizinho, tenha sido justamente o de expor a questão do terrorismo e seus vínculos no continente. Sennes argumenta que se trata de um erro colombiano, porque será difícil provar as gravíssimas acusações feitas contra Chávez. "A Colômbia entrou num jogo do qual não sairá vencedora."   Para Shifter, no entanto, se ficar provado que há ligação de Venezuela e Equador com as Farc, a reação internacional tem de ser dura. "As Farc cometem atos terroristas e criminosos e não têm legitimidade. Outros países devem encontrar meios de pressionar esses governos a romper os laços com a guerrilha. Há muitas razões para criticar o governo colombiano, mas é um governo eleito e legítimo não deve ser colocado no mesmo nível das Farc."

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