Paraguai insiste em vender excedente de Itaipu para vizinhos

Governo paraguaio afirma que vai renegociar o tratado de 1973, que nega o direito de venda para outros países

Agências internacionais,

23 de outubro de 2008 | 14h28

 O governo do presidente Fernando Lugo reafirmará ao Brasil sua intenção de dispor livremente de sua energia excedente da usina hidrelétrica de Itaipu. O anúncio da iniciativa foi feito nesta quinta-feira, 23, por Ricardo Canese, assessor de assuntos energéticos de Lugo. "O presidente Lugo deu um prazo de até 15 de agosto de 2009 para fechar as negociações com o Brasil em torno do tratado", disse Canese em entrevista coletiva no palácio do governo.  Veja também:Itaipu, um gigante polêmico "Basicamente o Paraguai quer modificar o tratado firmado em 1973 para que possa vender diretamente, e não seguir cedendo, como ocorre até o momento, a eletricidade que não utiliza, para assim obter mais benefícios", disse Canese. "O Brasil aparentemente só quer renegociar o preço da energia e a dívida de Itaipu". A usina funciona com 20 turbinas, mas pelo contrato o Paraguai não pode vender a eletricidade produzida ali para terceiros países. Pela cessão de eletricidade gerada por 9 das 10 turbinas que lhe correspondem, o Paraguai recebe anualmente US$ 103 milhões, mas, segundo Canese, a brasileira Eletrobrás revende o excedente e ganha com isso só na região de São Paulo US$ 2 bilhões anualmente. "Em um mês nos sentaremos para negociar com os especialistas designados pelo governo do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva", afirmou Canese. Durante sua campanha eleitoral, Lugo prometeu obter a renegociação de Itaipu. Brasiguaios Outra promessa do presidente antes de assumir foi realizar a reforma agrária. Porém o governo alega agora não ter o dinheiro suficiente para a iniciativa e pede mais prazo aos sem-terra. Ao mesmo tempo, os produtores de soja exigiram do presidente "paz e tranqüilidade no campo" nos próximos 30 dias, para que eles possam realizar a colheita. "Se nos próximos 30 dias não colhermos, as perdas serão milionárias não apenas para nós, mas também para o fisco", advertiu Héctor Cristaldo, presidente da patronal União dos Grêmios da Produção. O ministro do Interior, Rafael Filizzola, admitiu que os pedidos dos campesinos por reforma agrária "são justos". Também reconheceu que o governo não tem homens suficientes para patrulhar as áreas em que pode haver invasões e até mesmo conflitos. Os sem-terra ameaçam invadir várias propriedades, muitas delas de brasileiros. Os campesinos argumentam que há propriedades compradas de forma irregular e que deveriam ser destinadas à reforma agrária. Segundo a BBC, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil divulgou na quarta-feira uma nota onde afirma que o governo brasileiro está preocupado com as notícias de que movimentos sociais do Paraguai ameaçaram desencadear "ações violentas" contra a comunidade brasileira no país caso um programa de reforma agrária não tenha início imediato. A situação de tensão entre fazendeiros brasileiros, os chamados "brasiguaios", e sem-terra paraguaios fez com que muitos deles pedissem proteção às representações do Brasil no país, alegando que suas terras estão ameaçadas de invasão. "A existência de ameaças e manifestações de animosidade contra comunidades brasileiras têm sido objeto de manifestações de apreensão por parte das autoridades brasileiras. O assunto foi mencionado pelo presidente Lula durante a visita do presidente (Fernando) Lugo a Brasília no dia 17 de setembro passado", diz o comunicado. No comunicado, o Itamaraty afirma que as autoridades brasileiras têm confiança de que o governo do Paraguai conduzirá a situação "da melhor forma" e diz que o governo do Brasil ficou satisfeito com as manifestações do presidente Fernando Lugo de que garantirá as "necessárias condições de segurança" aos brasileiros. "O governo brasileiro reitera sua melhor disposição de cooperar com o governo paraguaio em programas sociais que contribuam, inclusive, para melhorar a situação no campo", diz a nota. Cerca de 300 mil "brasiguaios" vivem hoje na fronteira comum entre os dois países, 80% deles dedicados à lavoura da soja. A reforma agrária é uma das principais promessas do presidente paraguaio Fernando Lugo, eleito em abril deste ano e que encerrou uma hegemonia de 61 anos de poder do Partido Colorado no país. Ex-bispo católico, Lugo teve uma carreira ligada aos movimentos sociais e também prometeu renegociar o tratado da Hidrelétrica Binacional de Itaipu para conseguir um preço "justo" para a energia excedente que o Paraguai vende ao Brasil.

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