Paraguai recupera terra de brasiguaios para reforma agrária

Em editorial, jornal afirma que política colonizadora do Brasil é a responsável pela violência contra proprietários

Agências internacionais,

22 de outubro de 2008 | 16h20

Como parte de um novo plano de reforma agrária, uma agência governamental confirmou nesta quarta-feira, 22, que recuperou 380 hectares de terras para uso em reforma agrária que estavam irregularmente em poder de um fazendeiro paraguaio e de um colono brasileiro. Os terrenos serão distribuídos para agricultores sem-terra. Apesar disso, um grupo de colonos brasileiros - conhecidos como brasiguaios - pediu ajuda ao consulado do País em Ciudad del Este, 320 quilômetros a leste da capital, sob alegação de que suas fazendas de soja estão ameaçadas de invasão pelos sem-terra.   Veja também: Sem-terra paraguaios dão 72 horas para expulsar brasileiros Paraguai diz seguir manobras militares do Brasil com atenção   A tensão na relação com o Brasil foi elevada na terça-feira, quando o presidente Fernando Lugo advetiu que seu governo acompanha com atenção os exercícios militares realizados pelo Exército brasileiro na região de fronteira, afirmando que protestará em caso de excessos. Segundo o jornal paraguaio ABC Color, Lugo disse que "nenhum milímetro do nosso território, nem da cultura ou da soberania serão molestados. Se isso ocorrer, a reação paraguaia não vai esperar". O editorial do diário afirma nesta quarta que ninguém mais do que o Brasil tem culpa pela situação dos brasiguaios por conta da ação violenta das organizações sem-terra.   "Ninguém além do Brasil, com sua nefasta política de submissão do Paraguai e suas determinações particulares e egoístas, é mais responsável pelo que agora se passa nas nossas fronteiras comuns e que podem prejudicar os seus interesses... O país tende a consolidar sua hegemonia regional de potência imperialista colonizadora", afirma o jornal, que cita a Operação Fronteira Sul 2, para a qual mobilizou cerca de 10 mil homens nas fronteiras com Paraguai, Argentina e Uruguai, como treinamento contra atividades ilegais.   "Os blindados do Exército brasileiro passeiam pela nossa fronteira comum fazendo ostentações de força; os militares realizam manobras e os chefes fazem declarações que beiram a intimidação. 'Estamos preparados e dispostos a invadir o Paraguai para defender os brasileiros que residem no país', é a mensagem que nos enviam nossos vizinhos, tirando a face de integração para mostrar o seu verdadeiro rosto: de potência imperialista, colonizadora", diz o editorial.   As manifestações de camponeses sem-terra têm sido cada vez mais violentas no Paraguai. Há 15 dias, um sem-terra foi morto a tiros pela polícia depois de invadir a propriedade de um agricultor brasileiro. Em setembro, 700 manifestantes bloquearam o acesso à fazenda de outro empresário brasileiro, no distrito de Aguerito. Os movimentos sociais paraguaios têm grande expectativa de que Lugo - um ex-bispo adepto da Teologia da Libertação - promova uma reforma agrária profunda no país. A primeira medida do presidente paraguaio veio no início do mês, quando o governo invalidou a compra de terras por estrangeiros, mas poupou os cerca de 400 mil a 600 mil brasiguaios da decisão.   Héctor Cristaldo, presidente da União de Grêmios da Produção, assegurou que "faz um mês os colegas do Alto Paraná não podem colher 80 mil hectares de soja, porque os campesinos proíbem que os operadores de tratores realizem seu trabalho". Alberto Alderete, diretor do estatal Instituto de Desenvolvimento Rural e da Terra (Indert), disse na terça-feira que "pela via administrativa recuperamos 280 hectares no distrito Corpus Christi, departamento de Kanindeyú (600 quilômetros a nordeste de Assunção)".   A fazenda, dedicada ao cultivo da soja, era de propriedade do paraguaio Alcides González, segundo Alderete. O diretor do Indert afirmou que González adquiriu um lote agrícola (10 hectares) de um campesino beneficiado pela reforma agrária. "Esse negócio foi ilegal", sustentou.   Alderete também afirmou que outra propriedade, de 100 hectares, foi retomada de um colono brasileiro cuja identidade não soube precisar, no distrito Puente Kyjhá, em Kanindeyú. "Os estrangeiros que obtiveram a titulação de suas propriedades antes de 29 de dezembro de 2004 não serão desalojados", garantiu. Já no departamento (Estado) de San Pedro, 340 quilômetros ao norte, um grupo de 100 sem-terra invadiu na quarta-feira a fazenda do brasileiro Evandro Araújo, de 70 mil hectares, segundo o advogado Felino Amarilla. O advogado denunciou também a ocupação de sua própria fazenda, na mesma região. "No ano 2000 Araújo presenteou com 5 mil hectares outros campesinos que entraram em sua propriedade, mas agora querem tirar dele uma área similar", afirmou Amarilla.

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