RODRIGO CAVALHEIRO/ESTADÃO
RODRIGO CAVALHEIRO/ESTADÃO

Parque temático exalta os Kirchners

Na periferia de Buenos Aires, lições sobre dinossauros e programas sociais da presidente

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente, O Estado de S. Paulo

25 de julho de 2015 | 17h48

BUENOS AIRES - No parque temático que o kirchnerismo criou na periferia de Buenos Aires, crianças aprendem – gratuitamente – sobre a docilidade dos dinossauros e a agressividade dos abutres. A família Ovejero é uma entre milhares que nas férias vão a Tecnópolis, área do tamanho de 55 campos de futebol com estandes de alta tecnologia, em que jogos interativos misturam lições do primário com dicas sobre o tamanho ideal do Estado. Priscila Ovejero, de 5 anos, usava uma tiara com orelhas da Minnie ao sair da atração montada pelo Ministério da Economia – os órgãos de governo têm sua sede adaptada ao público infantil. 

Ali, ela se divertiu com o Fuera Buitres (Fora Abutres), uma versão kirchnerista do game Angry Birds, em que botões em um painel permitem disparar bolas com o logotipo de seis “planos sociais K” contra os pássaros em uma tela projetada na parede. Quando destruiu os lugares em que poderiam pousar, o bichos fugiram com cara de pavor. No lugar do “game over”, aparece a mensagem: “Missão cumprida. Entre todos, defendemos nossa soberania econômica. Cada vez mais livres”. 

Em seguida, um vídeo projetado em uma sala espelhada ensinou a Priscila como um presidente chamado Néstor Kirchner salvou o país em 2003, apostando na nacionalização de empresas como a Aerolíneas Argentinas e a petrolífera YPF. “É uma lavagem cerebral, mas não há o que fazer. Se a menina gosta de dinossauro, temos de trazer. E cada jogo é uma paulada. Acabamos de sair de um, não lembro o nome, em que todas perguntas eram sobre as principais realizações da presidente”, disse ao sair do prédio Elías Ovejero, pai da menina, instalador de vasos sanitários. 

Ele votará no conservador Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires e principal candidato da oposição. Há uma semana, após uma vitória eleitoral por estreita margem do candidato de seu partido na capital, Macri adotou um discurso parecido ao que aparece nos estandes de Tecnópolis. A razão para sua guinada ao centro – seu partido votou contra a nacionalização da YPF e das Aerolíneas – motivou na última semana várias teorias. 

Segundo o Instituto Ibarómetro, entre os eleitores que desejam a continuidade do kirchnerismo (um terço dos votantes), 89% veem o Estado como o principal responsável pelo seu bem-estar. A surpresa está entre os que querem uma mudança no grupo que está no poder há 12 anos: o porcentual é semelhante, 81%. Este bloco também representa um terço do eleitorado. A fatia restante quer mudar algumas coisas, não necessariamente o governo. 

“Independentemente dessa divisão, há uma inclinação por um Estado forte entre os argentinos”, diz Ignacio Ramírez, coordenador do estudo. Mesmo quando a ação estatal se refere à economia, os números são parecidos entre kirchneristas (71% são a favor da intervenção no setor) e anti-kirchneristas (61%). 

Segundo o levantamento anual sobre pobreza da Pontifícia Universidade Católica (UCA), 3 em cada 10 casas dos centros urbanos argentinos recebem alguma política social de emprego ou transferência de renda. Se considerados só os lares pobres, a proporção sobre para 6 em cada 10. O manual distribuído pela campanha de Macri afirma que quase dois terços das residências argentinas têm algum tipo de ingresso estatal. Em algumas províncias, o porcentual chega a 90%. Isso explicaria, segundo o documento do Proposta Republicana (PRO), “o temor ao que está fora do domínio do Estado”.

“Se Macri ficar só nos que são totalmente opositores, não conseguirá vantagem eleitoral. Ele está se afastando da direita para o centro. São as características da nova direita no mundo, a exceção de extremos como a França. Uma direita com sensibilidade social”, diz o cientista político Ricardo Rouvier, que integrou um grupo de intelectuais próximo ao kirchnerismo. 

Segundo pesquisa da Management & Fit, o candidato kirchnerista Daniel Scioli, governador da Província de Buenos Aires, tem 36,9% das intenções de voto. Macri aparece em segundo com 31,6% e Sergio Massa, um ex-kirchnerista que chegou a liderar disputa para a eleição de outubro, tem 12,1%.

“Tenho vizinhos que não trabalham com carteira para não perder o subsídio”, reclamava Elías, pai de Priscila, cujo salário é de 10 mil pesos (R$ 1.087) por mês. Ao seu lado, a mãe da menina, Yésica, de 33 anos, protestava contra a “propaganda política” de alguns jogos. “Nesse brinquedo eu não deixo mais ela ir.” 

Eleitora de Cristina, a advogada Soledad Agrelo, de 38 anos, defendeu o uso “político-pedagógico” de Tecnópolis e a mistura de atrações, como uma pista de patinação no gelo e o parquinho Pátria Grande – expressão bolivarianista. “Temos de ensinar o que é real desde quando possam ter algum conteúdo em sua cabecinha. A infância não é só de princesas.”


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