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Partidários de Cristina anunciam ato contra ruralistas na 5ª

Ato público, convocado por Néstor Kirchner, apoiará 'presidente contra golpistas que tentam derrubar governo'

Marina Guimarães, da Agência Estado,

26 de março de 2008 | 21h24

Em vez de abrir o diálogo com os ruralistas para apaziguar o conflito entre o governo e o setor agropecuário, os aliados de Cristina Fernández de Kirchner, decidiram realizar um ato político na quinta-feira, 27, às 18 horas, no Parque Norte, em Buenos Aires. Convocado pelo ex-presidente Néstor Kirchner, como líder do Partido Justicialista (PJ), o ato público será "para apoiar a presidente contra os golpistas que querem derrubar o governo popular de Cristina Kirchner", afirmou o piqueteiro Luis D'Elía, um dos responsáveis pela violência, na noite de terça-feira, 25, contra os manifestantes em favor do campo, durante o panelaço na Praça de Maio.  Veja também:Argentina adverte que reabrirá estradas fechadas por grevistas Para o analista político argentino, Rosendo Fraga, o protesto dos ruralistas é o maior desafio político que o kirchnerismo enfrenta desde a mobilização pela segurança pública protagonizada pelo engenheiro Carlos Blumberg, que perdeu o filho em um seqüestro, há quatro anos. Na ocasião, milhares de pessoas, espontaneamente, se juntaram para reclamar pela segurança pública, como fazem agora os produtores rurais para pedir uma política agrícola e que o governo reveja a mudança do sistema de impostos de exportação - retenções - que fixou alíquotas móveis de acima de 40% para os grãos. "O governo trata de desqualificar o protesto dos ruralistas acusando-o de golpista, como acusou o de Blumberg de fascista. A diferença entre ambas as situações é que em 2004, o governo reagiu rapidamente e diluiu os protestos ao enviar um projeto de lei sobre o assunto ao Congresso Nacional. E, agora, decidiu não ceder e partir para o confronto", compara Fraga. "Essa decisão leva ao conflito à uma escalada preocupante", destacou completando que "os dirigentes do agro enfrentam dificuldades para manter o controle de suas bases". Para o cientista político, o problema central da administração Kirchner diante do locaute agropecuário "é que desconhece sua entidade e significado como fenômeno social". Fraga critica o governo Kirchner por "assumir uma atitude dos anos 40 como se fosse o próprio (ex-presidente e general Juan Domingo) Perón de 60 anos atrás, que identificava a agricultura com os fazendeiros da Sociedade Rural Argentina (SRA), que viviam de rendas em Buenos Aires". Mas a realidade atual do campo argentino é diferente: "há milhares de pequenos produtores que participam ativamente do setor e da melhoria técnica do agro, geram profissionais e técnicos que trabalham no setor, e, além disso, se articula na cadeia de valor agroindustrial, e emprega direta e indiretamente milhões de pessoas", ressaltou Fraga. Ele lembra que antes, o agro combinava uma minoria de classe alta, com o peão rural de classe baixa. Em compensação, agora, é uma atividade de classe média, que se faz evidente nos protestos nas rodovias. Impasse O cientista político do Centro União para a Nova Maioria, de Buenos Aires, afirma que o governo "não entendeu que enquanto a classe média urbana se debilitou, a classe média rural se fortaleceu". Em realidade a entidade mais conservadora, a SRA é hoje a mais aberta ao diálogo, enquanto que a mais popular, a Federação Agrária (FAA), que representa os pequenos produtores, é mais combativa. Mas a situação mais perigosa, segundo o analista, é a criada pela política oficial de impulsionar o chamado "contra-piquete" através do sindicato dos caminhoneiros e dos piqueteiros oficiais K - desempregados que recebem subsídios do governo e atuam em manifestações sociais a favor do Executivo. "O governo não mostra com os ruralistas, a mesma passividade que teve com os piqueteiros propriamente ditos ao longo dos cinco anos de governo de Kirchner, ou com os moradores de Gualeguaychú, que vem bloqueando as fronteiras com o Uruguai neste mesmo período", destaca Fraga. Os bloqueios dos ruralistas chegaram a 400, na última segunda-feira, uma cifra superior à registrada no pior momento da crise no primeiro semestre de 2002. Naquele mesmo dia, tiveram início os incidentes com os caminhoneiros e com a polícia da fronteira - a Gendarmeria. "Por isso, o discurso de Cristina, transformou o conflito setorial em político. A classe média urbana que na noite de terça saiu às ruas batendo panelas como há seis anos atrás, já não reclama contra as retenções, mas contra um estilo autoritário de exercer o poder", diagnostica Fraga. Segundo o analista, as agressões sofridas nesta mesma noite pelos manifestantes na Praça de Maio constataram que o discurso de Cristina havia aproximado o conflito ao risco de violência em vez de afastá-lo, como deveria ter sido.  

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