PERFIL-Chávez assume 'por enquanto' sua 1a derrota eleitoral

Embora tenha deixado o Exército há maisde 15 anos, Hugo Chávez garante que nunca deixou de ser umsoldado. E, como soldado, admitiu ter perdido uma batalha, masnão a guerra. A batalha, no caso, foi o referendo de domingo, em que apopulação barrou uma reforma constitucional que lhe permitiria,entre outras coisas, se candidatar a infinitas reeleições. "Para mim isso não é derrota nenhuma. Para mim esse é outro'por enquanto"', disse Chávez, repetindo a frase que dissera aoadmitir o fracasso do golpe de Estado que ele tentou em 1992,quando era tenente-coronel pára-quedista do Exército. Aquela intentona lhe custou mais de dois anos na cadeia,mas foi também o pontapé inicial de uma meteórica carreirapolítica que lhe permitiria ser eleito nas urnas, em 1998, comum discurso de combate à pobreza e à política tradicional. Desde então, o presidente trava uma guerra constante nasurnas, com sucessivas vitórias -- até esta segunda-feira,quando surgiu o resultado final do referendo da véspera. "Eu, como presidente da nação, da república, ouvi a voz dopovo e sempre vou estar ouvindo-a", disse Chávez, acusado pelosinimigos de ser um "tirano" tentando implantar na Venezuela umaditadura no estilo cubano. Apesar de continuar popular, o "Comandante", reeleito háapenas 12 meses por ampla maioria, não conseguiu convencer opaís da conveniência da reforma, destinada oficialmente aaprofundar a "revolução socialista" do chavismo. Chávez pediu a seus seguidores que aceitem o resultado ecumprimentou seus adversários, que chamou de"contra-revolucionários". O segundo mandato de Chávez sob aatual Constituição termina em 2013, e sem a reforma ele terá desair. O "não" conseguiu vencer o referendo apesar do intenso usoque o governo fez da campanha pela televisão, na qual nãofaltavam arroubos do presidente contra seus inimigos,especialmente "o império estadunidense" e a "oligarquiavenezuelana", a quem acusa de planejar seu assassinato e até deestragar sua maior diversão. "Na verdade, para mim, acabou a paixão do beisebol (esportenacional da Venezuela), até o beisebol perdemos, já é dosgringos", disse recentemente Chávez, que na juventude sonhou emser jogador nas grandes ligas norte-americanas. Para seus seguidores, por outro lado, Chávez é puro amor."Mais que amor, frenesi", costuma cantar durante seusmaratônicos discursos, diante de simpatizantes vestidos devermelho. É nessas horas que o presidente mostra seu lado maishumano, lembrando episódios da vida. Confessa que sentesaudades dos quatro filhos, que está emocionado pelo nascimentodo terceiro neto, e recusa com tristeza comentar as críticas desua segunda ex-esposa ao projeto de reforma. Sua história de homem humilde que acabou no topo do poderentusiasma a maioria pobre dos venezuelanos, sua base de podereleitoral, que se sente valorizada com o discurso de dignidadesocial e com os multimilionários programas sociais financiadoscom a renda do petróleo. Segundo de seis irmãos, Chávez nasceu em uma família depoucos recursos, nas planícies sempre citadas em seus discursose para onde ele pretende se mudar "na companhia de uma boamulher" quando deixar o comando da República, em 2013 -- "porenquanto".

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