PERFIL-Fidel Castro sai de cena e formaliza transição em Cuba

Fidel Castro, a última lenda viva daesquerda revolucionária, pendurou para sempre o uniforme e seafasta do poder após quase meio século desafiando os EstadosUnidos a partir da pequena ilha de Cuba. O líder cubano, de 81 anos, não aparece em público desde 31de julho de 2006, quando se submeteu a uma cirurgia para conteruma hemorragia intestinal e se viu obrigado a delegar o poder aseu irmão mais novo, Raúl, seu ministro da Defesa e sucessordesignado. Sua última jogada contra os EUA, que durante décadas tevecentenas de planos para derrubá-lo, foi amarrar a sucessão emvida. Raúl, um general de 76 anos, poderá ser confirmado peloParlamento, no domingo, como novo chefe de Estado. Durante o último ano de convalescença, ele abriu um novoespaço para si na política como editorialista do jornal oficialGranma, de cujas páginas anunciou nesta terça-feira sua vontadede não buscar um novo mandato presidencial. O jovem advogado que, aos 32 anos, desceu da Serra Maestracom seus barbudos rebeldes para derrubar o ditador FulgencioBatista, no primeiro dia de 1959, foi durante mais de quatrodécadas um zeloso guardião do comunismo em Cuba. A figura quase mítica do corpulento Fidel, habitualmentemetido em sua farda verde-oliva e disposto a falarincansavelmente durante horas, ficará marcada por seuenfrentamento com os EUA, seu inimigo a apenas 150 quilômetrosde distância. Sua influência internacional voltou a crescer nos últimosanos, quando o velho guerrilheiro deixou de receitar arevolução armada para curar os males do Terceiro Mundo e criouuma série de enormes programas gratuitos de saúde quebeneficiaram milhões de pobres. O regime comunista cubano sobreviveu ao colapso da UniãoSoviética, em 1991, e superou uma de suas piores criseseconômicas graças à aliança estratégica com o presidentevenezuelano, Hugo Chávez, que comanda o quinto maior exportadormundial de petróleo. "Cometi erros, mas nenhum estratégico, simplesmentetático... Não tenho nenhum átomo de arrependimento do quefizemos em nosso país", afirmou Fidel depois da doença. POLÊMICO LEGADO O legado político de Fidel, aclamado por seus simpatizantescomo herói e tachado de tirano por seus críticos, será objetode debates durante anos. Mas poucos duvidam da astúcia que lhe permitiu manter-se nopoder por mais de 49 anos, resistir às pressões de 10presidentes norte-americanos, mais de quatro décadas de embargoeconômico e 637 planos de assassinato. Os "fidelistas" afirmam que a Revolução Cubana, iniciadapor um punhado de rebeldes precariamente armados, resgatou ailha do domínio dos EUA e a transformou em um local com osmelhores serviços de educação e saúde pública do TerceiroMundo. Já os detratores, sobretudo na comunidade de exiladoscubano-americanos na Flórida, dizem que desde o início ele secomportou como um ditador egocêntrico e intolerante. Como seu camarada argentino Ernesto Che Guevara (1928-67),Fidel se tornou um mito inspirador para a esquerda das décadasde 1960 e 70. Poucos dias depois de derrotar Batista, Fidel declarou aocanal CBS, dos EUA, que não pensava em se barbear, já que abarba que deixou crescer na Serra Maestra significava muitopara os cubanos. "Quando tivermos cumprido nossa promessa de um bom governo,cortarei a barba", disse ele ao jornalista Edward R. Murrow. REVOLUCIONÁRIO DE BOA FAMÍLIA Fidel nasceu em 13 de agosto de 1926 em Birán, povoado noleste de Cuba, filho de um espanhol da região da Galícia que setornou um próspero proprietário de terras. Suas propriedadesforam as primeiras a serem expropriadas pelo governo de Fidel,pouco depois do triunfo da revolução. Embora poucas vezes falasse da sua infância, Fidel diziater adquirido desde cedo o sentido de justiça social, ao ver apobreza dos seus vizinhos e a influência das grandes empresasnorte-americanas. Fidel estudou em uma escola jesuíta e depois na Faculdadede Direito da Universidade de Havana, onde logo se envolveu napolítica estudantil, às vezes violenta. Sua memória fotográficalhe ajudava a ser aprovado nos exames. Em 26 de julho de 1953, liderou um ataque quase suicida aoquartel Moncada, em Santiago de Cuba, que terminou com a morteou prisão da maioria dos participantes. Foi detido com seuirmão Raúl e advogou em causa própria, apresentando ummemorável discurso intitulado "A história me absolverá". Libertado em 1955 graças a uma anistia política concedidapor Batista, Fidel viajou para o México, onde conheceu Che eorganizou um grupo de exilados cubanos para invadir a ilha. Isso aconteceu em 1956, quando os rebeldes desembarcaram emum manguezal do oeste de Cuba, onde soldados de Batista osreceberam a bala. Os sobreviventes, entre os quais Fidel, Raúle Che, conseguiram se refugiar na Serra Maestra. Em 1958, os rebeldes se espalharam por toda a ilha,obrigando à fuga de Batista de Havana em 1o de janeiro de 1959.Formou-se então um governo provisório, no qual Fidel se tornouchefe das Forças Armadas e depois primeiro-ministro. Os anos seguintes foram muito agitados na ilha, com afrustrada invasão de exilados cubanos na baía dos Porcos, em1961, e a "crise dos mísseis", em 1962, quando Fidel permitiu ainstalação de ogivas nucleares soviéticas na ilha, finalmenteretiradas graças a um acordo entre Washington e Moscou. Após o colapso do bloco socialista, no começo da década de1990, e a conversão da "madrinha" Rússia ao capitalismo, Fidelreafirmou sua rejeição a abandonar o sistema socialistaintroduzido em Cuba. Quando os cubanos perderam peso dramaticamente devido àcrise e ao embargo, Fidel viu-se obrigado a abrir a economia aoturismo e a investimentos estrangeiros. Sua legitimidade internacional se viu reforçada com avisita do papa João Paulo 2o a Cuba, em janeiro de 1998.Após 49 anos no poder, Fidel foi o governante mais longevo dahistória moderna. GUERREIRO INDESTRUTÍVEL Apesar da aura de guerreiro indestrutível, os anos forampesando sobre ele. Em 2001, desmaiou em público depois de duas horas falandosob o sol. Esse breve colapso provocou comoção entre oscubanos, que nunca antes haviam-no visto interromper umdiscurso. Em outubro de 2004, tropeçou durante um evento na cidade deSanta Clara, fraturando o joelho esquerdo e o braço direito. Assim, sua mortalidade deixou de ser um tema tabu e Raúl,eterno número dois, emergiu como sucessor. Fidel sempre manteve sua vida privada praticamente secreta.Sabe-se que casou em 1948 com Mirtha Díaz Balart, irmã de umfuncionário de Batista, com quem teve seu filho Fidelito. O casamento acabou em 1955, e desde então Fidel, com famade sedutor, teve outros casos, como com Naty Revuelta, uma damada alta sociedade pré-revolucionária. A filha de ambos, Alina Fernández, partiu de Cuba na décadade 1990 e se tornou uma conhecida crítica do seu pai. Fidel depois passou a viver com uma ex-professora, DaliaSoto del Valle, com quem teve cinco filhos homens, todos comnomes começados pela letra A.

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