PERFIL-Lugo luta para se manter no poder no Paraguai

Fernando Lugo, ex-bispo católico que fez história no Paraguai ao chegar à Presidência e mudar o rumo político do país após seis décadas, enfrenta agora um processo de impeachment que pode tirá-lo do poder.

DANIELA DESANTIS, REUTERS

21 de junho de 2012 | 18h52

Lugo, um socialista que desafiou o Vaticano ao trocar o altar pelos palanques, e que derrotou um câncer durante seu mandato, foi acusado de responsabilidade por um conflito fundiário que resultou em 17 mortes na semana passada.

Isolado politicamente, Lugo antecipou que lutará para se manter no cargo e que não existe razão "jurídica nem política" para destituí-lo.

"Amo profundamente o povo paraguaio, vim dele, continuarei trabalhando pela causa das suas grandes aspirações e me encontrarão sempre lutando pela justiça social e a paz entre os paraguaios", afirmou Lugo em mensagem ao país.

"Este presidente ... se submete com absoluta obediência à Constituição e às leis para enfrentar o julgamento político em todas as suas consequências."

O presidente cultiva um jeito sereno e pausado de falar, como se estivesse numa missa, mas sua presidência esteve longe de navegar em águas calmas, e ele precisou enfrentar, além da doença, escândalos pessoais que terminaram com o reconhecimento de dois filhos e a resistência de um Congresso no qual nunca teve maioria.

E a heterogênea aliança o que amparou, na qual se misturam esquerdistas radicais e liberais, tampouco esteve isenta de divergências internas.

Nos últimos dias, a pressão sobre ele se multiplicou, o que levou à destituição do ministro do Interior e do comandante da polícia, e à renúncia de quatro ministros e um secretário de Estado.

Lugo chefiou durante dez anos a diocese de San Pedro, um dos departamentos mais pobres do país, onde trabalhou com organizações camponesas e forjou uma visão de país que tentaria pôr em prática mais adiante.

Ele saltou para a fama na política ao liderar uma enorme manifestação contra seu antecessor, o que representaria o começo do fim das seis décadas de governo do conservador Partido Colorado.

Em abril de 2008 foi eleito presidente, recebendo uma inédita dispensa do Vaticano. Tomou posse em meio a uma grande festa cívica, com popularidade estratosférica.

Mas as reformas propostas por seu governo tropeçaram na oposição parlamentar, e o respaldo à sua gestão começou a cair à medida que crescia a percepção de paralisia num governo em que tudo estava por fazer.

Mesmo assim, avançou em planos sociais, como ao estabelecer a gratuidade da saúde pública e a assistência monetária a famílias miseráveis, com a contrapartida de que vacinassem e matriculassem seus filhos em escolas.

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