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Perto dos Estados Unidos, Raúl Castro consolida reforma

Reaproximação entre Washington e Havana reflete mudanças econômicas e políticas em Cuba desde saída de Fidel, em 2008

Fernanda Simas, O Estado de S. Paulo

24 de maio de 2015 | 21h27

As conversas entre os presidentes de Cuba, Raúl Castro, e dos Estados Unidos, Barack Obama, e o posterior anúncio sobre a retomada de relações diplomáticas entre Havana e Washington, evidenciaram uma mudança de discurso cubano que já vinha sendo detectada após Raúl assumir a presidência da ilha com a saída do irmão Fidel Castro. 

A mudança econômica, com uma pequena abertura, ficou clara, mas houve também a questão política. "As mudanças econômicas são enormes, assim como a sua reconciliação com a Igreja Católica e o afrouxamento de alguns controles políticos", disse ao Estado o professor de governança e especialista em América Latina da American University William LeoGrande, coautor do livro Back Channel to Cuba: The Hidden History of Negotiations between Washington and Havana (Canal secreto com Cuba: a História Oculta das negociações entre Washington e Havana, em tradução livre).

LeoGrande considera que o estilo de governar também reflete as diferenças. "A abordagem de Raúl é muito diferente da de Fidel, em questão de estilo e conteúdo. Raúl governa de forma mais coletiva, na qual outros líderes, como Miguel Diaz-Canel e Jose Machado Ventura, têm frequentemente os holofotes. Seus discursos são mais curtos e diretos, e menos frequentes dos que os feito por Fidel."

Para o professor, o líder da Revolução Cubana foi consultado sobre as mudanças que estão sendo feitas pela administração do irmão, mas não as aprova totalmente. "O atraso e o tom morno em comentar o assunto sugerem isso", afirma. Na ocasião, a demora de Fidel em se pronunciar sobre as novas relações Cuba-EUA provocaram rumores até sobre sua morte.

Abertura. Desde o anúncio de dezembro feito por Raúl e Obama, Cuba está no centro do noticiário em razão de visitas de Estado, novas relações com países - e não apenas com os EUA. A retomada de relações diplomáticas entre Havana e Washington significa a consolidação da relação com outros países que já tinham interesse em comercializar com a ilha.

Em maio, o presidente francês François Hollande realizou a primeira visita de Estado de um líder europeu a Cuba. Hollande inclusive chamou Fidel de “um homem que fez história” e contou que desejava se encontrar com o líder cubano. 

Mas LeoGrande ressalta que a ilha já tinha uma boa relação com outros países, principalmente da América Latina. “A França tem sido um líder dentro da União Europeia favorecendo melhores relações com Cuba. Atualmente a União Europeia está negociando com Havana a conclusão de acordos de cooperação”, afirmou. Em maio, França e Cuba fizeram negócios no valor de US$ 200 milhões.

No mesmo mês, Raúl declarou que pode começaria a rezar e "voltaria à Igreja" após uma visita ao Vaticano - o que não ocorria desde 1996, quando Fidel encontrou com o papa João Paulo 2º e os dois deram um histórico aperto de mãos. A nova relação com a Igreja Católica começou já nas reuniões com os EUA, mediadas e incentivadas pelo papa Francisco.

A troca de elogios entre Raúl e Obama durante a Cúpula das Américas também surpreendeu. "Cuba parece muito interessada em normalizar as relações com os EUA. Foi extraordinário Raúl ter se referido a Obama como um homem honesto no Panamá", lembrou o analista. "Acredito que a principal mudança seja nas relações dos EUA com outros países. A nova política de Obama foi considerada muito favorável pela América Latina e acredito que melhorou a forma como presidentes latino-americanos veem os EUA."

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