Pichações anti-semitas aparecem na Argentina

Vandalismo coincide com aniversário de 75 anos da chegada de Hitler no poder da Alemanha

Ariel Palacios, de O Estado de S. Paulo,

31 de janeiro de 2008 | 08h41

O centro da cidade de Santa Fé, capital da província homônima, amanheceu na quarta-feira, 30, com pichações com frases anti-semitas realizadas sobre as paredes da escola Bialik, pertencente à comunidade judaica local. O governador socialista Hermes Binner ordenou uma imediata abertura de investigações para identificar, localizar e punir os responsáveis. Binner, eleito em outubro passado, afirmou categoricamente que não aceitará qualquer tipo de ato de discriminação durante seu governo.   As pichações foram realizadas pela auto denominada Juventude Fascista, que possui na internet um site com fotografias, vídeos e textos sobre o Führer alemão Adolf Hitler e o Duce italiano Benito Mussolini. No site, os organizadores pregam "a luta" contra os "zurdos" (esquerdistas) e os "assassinos de Cristo". Diversos vídeos fazem apologia da última Ditadura Militar argentina (1976-83).   As pichações coincidiram com o 75.º aniversário da chegada de Hitler ao poder na Alemanha. A província de Santa Fé possui uma das principais comunidades judaicas argentinas fora de Buenos Aires. A migração, iniciada no final do século XIX, principalmente proveniente da Rússia, provocou o surgimento de diversas cidades no interior da província, onde os judeus dedicaram-se às atividades agrícolas. Rapidamente, adaptaram-se aos costumes locais, tal como o uso das bombachas. Por esse motivo, os judeus de Santa Fé e os da província de Entre Ríos (ambas fazem parte dos Pampas argentinos) foram apelidados de "os gaúchos judeus".   A Argentina possui a maior comunidade judaica da América Latina, com 300 mil pessoas. O país também possui uma grande concentração de grupos neonazistas, além de ser o principal centro editorial de material nazista da América do Sul. Estatuetas representando Hitler e oficiais da SS fazendo a saudação nazista são vendidas em diversas pequenas lojas do centro portenho. O preço médio de cada estatueta é US$ 20.   Segundo dados do Centro de Estudos Sociais (CES), vinculado à Delegação de Associações Israelitas da Argentina (DAIA), o braço político da comunidade judaica argentina, em 2006 os atos anti-semitas aumentaram na Argentina 57,1% em relação a 2005.   Os atos anti-semitas (abrangendo pichações, profanações de cemitérios, agressões físicas e declarações racistas) passaram de 373 casos em 2005 para 586 atos em 2006. Desde 1998, quando a medição sobre atos anti-semitas começou a ser realizada, houve um crescimento de 600%. Segundo as autoridades da DAIA, "a Argentina não é um país anti-semita. Mas aqui existem grupos que estimulam o ódio racial".   Ataques   Em 1918, Buenos Aires foi o cenário do primeiro e último "Pogrom", realizado em terras latino-americanas. Na ocasião, 179 judeus, a maioria de origem russo, foram massacrados por grupos nacionalistas de extrema direita nos bairros de Once e Villa Crespo, segundo denunciou na época o embaixador dos EUA.   Durante os anos 1930, o partido nazista argentino, o maior da América Latina, realizava sem qualquer tipo de restrição, manifestações na via pública. Após o fim da Segunda Guerra Mundial a Argentina foi o refúgio para milhares de criminosos de guerra nazistas.   Além disso, a comunidade judaica argentina também foi o alvo dos dois maiores atentados terroristas realizados na região. O primeiro deles, em 1992, destruiu a Embaixada de Israel, matando 30 pessoas e ferindo outras 200. Em 1994, um carro bomba arrasou a sede da associação beneficente judaica AMIA, provocando a morte de 85 pessoas e ferindo e mutilando outras 300.   Em ambos casos existem fortes suspeitas sobre uma "conexão argentina", supostamente composta por integrantes de grupos de extrema direita como os militares "cara pintadas".

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