Polarização marca 2º aniversário do governo de Evo

Presidente completa dois anos no cargo decidido a manter 'revolução democrática e cultural'

CARLOS A. QUIROGA E ARMANDO PÉREZ, REUTERS

22 de janeiro de 2008 | 14h38

O ex-cocaleiro Evo Morales completou na terça-feira dois anos na Presidência da Bolívia, decidido a manter sua "revolução democrática e cultural", que provocou uma polarização política inédita no país mais pobre da região. Em 24 meses, o primeiro presidente indígena da Bolívia nacionalizou os hidrocarbonetos, pôs em andamento uma nova reforma agrária, criou programas de renda mínima para crianças e idosos e avançou com a "refundação" da Bolívia, mediante uma nova Constituição. Mas essas medidas -- prometidas na campanha eleitoral de 2005 -- acabaram aprofundando as divergências entre o esquerdista Morales e a oposição, liderada por quatro governadores das províncias mais ricas. "Foram dois anos de grandes avanços, principalmente pela recuperação da dignidade nacional devido à nacionalização do petróleo", disse a repórteres na segunda-feira o líder camponês governista Isaac Avalos. Para o influente deputado Wilman Cardozo, da aliança direitista Podemos, Morales "teve luzes e sombras, mas o mais negativo foi o fato de ter promovido o confronto, já não mais entre classes sociais, mas entre raças". Morales não conta com o mesmo respaldo doméstico que outros governos esquerdistas latino-americanos, por isso viveu mais dias de tensão nos primeiros dois anos de mandato. "É certo que existe uma situação de alta conflitividade no país', disse o analista César Ríos, da fundação Unir, que elogiou os avanços de Morales para alinhar seu governo às reivindicações populares. "O presidente consegue ressintonizar a política com o sentimento da população, que estava esperando a nacionalização dos hidrocarbonetos, a Assembléia Constituinte e a presença indígena dentro do governo", afirmou. Alejandro Nató, representante na Bolívia do Centro Carter, defendeu que a confrontação política não deve ser considerada sinal de instabilidade, e sim de "amadurecimento político", porque acontece em "uma democracia viva, uma negociação participativa notável"." A reforma constitucional, promovida por uma Constituinte dominada pelo governo e boicotada pela oposição, acabou sendo o pivô da maior polêmica no país, principalmente por causa da questão da autonomia regional. A nova Carta foi aprovada, mas ainda precisa ser submetida a referendos. Em protesto ao conteúdo do texto, governadores oposicionistas declararam unilateralmente a autonomia de suas províncias. No auge da crise, Morales sugeriu que ele e o governadores se submetam a referendos revogatórios simultâneos. A oposição ainda não respondeu à proposta. Para Ríos, além dos acertos estratégicos, Morales também cometeu erros táticos. "Um foi se colocar contra as autonomias de tal forma que houve um processo de grande polarização que gera instabilidade." No início do ano, o governo e os governadores deram início a um diálogo, que ainda não teve resultados palpáveis. Em discussão está também um programa de renda universal para idosos. "As turbulências são próprias de um país que está vivendo um processo histórico pontual, que é começar a se olhar no espelho, começar a discutir esses temas que não foram tocados ao longo da história", disse Nató. (Reportagem de Carlos Alberto Quiroga e Armando Pérez, com colaboração de Mónica Machicao)

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