Polícia abre investigação sobre brasileira torturada na Suíça

Advogada brasileira atacada por skinheads perdeu bebês e teve sigla de partido xenófobo marcada no corpo

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

12 de fevereiro de 2009 | 07h37

A polícia de Zurique confirmou ao Estado nesta quinta-feira, 12, que abriu uma investigação para descobrir em quais circunstâncias ocorreram os ataques contra a brasileira Paula Oliveira. Na última segunda-feira, ela foi atacada por neonazistas suíços na periferia da cidade. Grávida de três meses, Paula perdeu as gêmeas e permanece hospitalizada. "Abrimos uma investigação e precisamos de algum tempo para reunir provas", afirmou a porta-voz da polícia de Zurique Brigit Vogt.   Veja também:'Fomos vítimas da xenofobia', diz pai de torturada na Suíça   Nesta manhã, a cônsul-geral do Brasil em Zurique, Vitória Clever, esteve reunida com a polícia local e foi informada de que haverá uma investigação. "Recebi garantias de que a polícia vai investigar o caso", disse Vitória. Paula, que trabalhava legalmente no país, foi atacada e torturada por três neonazistas na noite de segunda-feira na cidade suíça de Dubendorf, na periferia de Zurique. Os agressores inscreveram, com um estilete, a sigla SVP - iniciais em alemão do Partido do Povo Suíço, de extrema direita - na barriga e nas pernas da brasileira. O ataque fez com que Paula, casada com um suíço, abortasse.     Foto: Divulgação   Nos últimos meses, ataques xenófobos têm ganhado força na Europa diante de um discurso cada vez mais racista dos partidos de extrema direita. Na Suíça, a crise financeira internacional e o aumento do desemprego deram popularidade aos partidos políticos que defendem medidas contra a imigração. Casos de ataques contra estrangeiros aumentaram, mas, até agora, os brasileiros não eram os alvos preferidos - as principais vítimas são imigrantes turcos, ex-iugoslavos e africanos.   Paula, uma pernambucana de 26 anos, trabalha na multinacional Maersk e foi atacada quando voltava do trabalho, após desembarcar na estação de trem perto de sua casa. Paula falava ao telefone celular com a mãe, que estava no Recife, quando foi cercada pelos três skinheads. Levada para um parque, foi espancada por 15 minutos e teve sua roupa parcialmente arrancada. Um deles usou um estilete para cortar barriga, braços, rosto, tórax e pernas. "Ela ficou marcada em várias partes do corpo", disse a cônsul.   A diplomacia brasileira criticou o comportamento da polícia após a agressão. Isso porque, ao prestar queixa, Paula foi interrogada pelo detetive Andreas Hug - ele duvidou de sua versão, querendo saber se ela não teria se autoflagelado. Paula disse que um dos agressores tinha uma suástica tatuada no corpo. A cônsul também passou por uma situação constrangedora ao telefonar para a polícia. A delegacia local apenas a informou que, se quisesse saber detalhes da agressão, que perguntasse à vítima. Por enquanto, familiares disseram que ela permanecerá no hospital local. Em breve, ela deve voltar para o Recife. Paula é filha de Paulo Oliveira, secretário parlamentar do ex-governador de Pernambuco e deputado federal Roberto Magalhães (DEM-PE).   O que mais chamou a atenção do Itamaraty foi o caráter xenófobo do ataque, já que a brasileira não teve nada roubado. A cônsul quer que a marca do SVP no corpo da brasileira seja investigada para saber se trata de um ataque premeditado. "Queremos saber se foi algo organizado ou apenas um bando de loucos racistas", afirmou. O SVP é atualmente o maior partido da Suíça e vem ganhando espaço político. Entre suas propostas está o limite na nacionalização de estrangeiros, o fechamento das fronteiras para trabalhadores imigrantes, a proibição de construção de mesquitas e maiores dificuldades para refugiados.

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