Posição de cúpula não deve ter efeito em decisão sobre Cuba

Para analista, EUA buscam não responder a pressões internacionais para fim do embargo; 'avanço é político', diz

Gabriel Pinheiro, estadao.com.br

17 de dezembro de 2008 | 17h22

O pedido da Cúpula da América Latina e Caribe (CALC) para o fim do embargo dos Estados Unidos a Cuba é uma boa sinalização para o próximo governo americano de uma opinião consensual da região, mas não deve surtir efeito em uma eventual decisão de Washington, avalia o professor de História e Relações Internacionais da Unesp Luis Fernando Ayerbe. "O fim do embargo a Cuba já foi votado recorrentemente nas Nações Unidas, essa pressão internacional é uma questão antiga", afirmou. "Os EUA buscam não responder diretamente a esse tipo de pressão. Pode ser que o presidente eleito Barack Obama mude essa questão do embargo, mas acredito que no início do governo, não."   Durante as reuniões que acontecem na Costa do Sauípe, na Bahia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que "não existe mais uma explicação econômica ou política" para que o bloqueio, que começou na década de 1960, continue em vigor. "Há um consenso dentro e fora nos EUA de que tem de mudar a relação com Cuba. Mas não vai ser uma mudança de um dia para outro, nem no início do governo, nem em um contexto de pressões", explica Ayerbe.   Veja também: Washington foi 'desprezado' em cúpulas na Bahia, diz 'NYT' Lula vê 'furacão político e ideológico' na AL Chávez diz na Bahia que capitalismo é coisa do diabo Bolívia defende prazo aos EUA para fim de embargo a Cuba   Na terça-feira, o presidente cubano Raúl Castro agradeceu o apoio regional no histórico encontro, o primeiro que reúne líderes da América do Sul e Caribe sem a presença de representantes da Europa ou EUA, e voltou a classificar o embargo como "ilegal e injusto", que "viola os direitos humanos de nosso povo". Para o especialista, "no início do governo Obama, certamente haverá mudanças em aspectos da relação entre os dois países, mas para o embargo cair, vai demorar."   Sobre uma possível melhora nas relações com a região durante a administração Obama, Ayerbe lembra que "quando George W. Bush assumiu a Presidência, no primeiro mandato, ele dizia que olharia mais para a América Latina. Então houve o 11 de setembro e a guerra contra o terrorismo, e a América Latina sofreu uma mudança brusca na agenda de política externa americana". Com o novo presidente, em termos de recursos e programas de desenvolvimento para a região, o professor diz não ver "nenhum tipo de mudança de imediato, justamente por causa da crise econômica", embora ressalte que acredita em uma mudança de retórica para a região, "menos impositiva."   Liderança brasileira   Nesta quarta-feira, o presidente venezuelano Hugo Chávez disse durante reunião da CALC que o Brasil não é a única liderança da região. Segundo Ayerbe, embora pareça que haja essa disputa entre os países, o papel de líder do Brasil é natural, "não só pelo peso econômico do País, mas por uma diplomacia que vem desde o tempo do presidente Fernando Henrique Cardoso, que promoveu a primeira cúpula sul-americana."   Sobre a alfinetada de Chávez, o professor diz que o venezuelano "é alguém que expõe mais explicitamente a vontade do poder, mas a Venezuela não tem condições de exercer uma liderança como o Brasil tem", mas ele descarta um atrito nas relações entre os dois presidentes. A declaração "é algo que é mais explorado externamente", diz o analista.   Avanços   Para Ayerbe, as cúpulas na Bahia mostram o sucesso de convocar vários líderes para diversas reuniões em um momento politicamente importante, antes do início do próximo governo americano. "O que não significa que seja um êxito total do ponto de vista do Brasil. Teve o problema do Mercosul, que não conseguiu avançar na questão da dupla tarifação - ou seja, ainda há divergências entre os países", afirma o professor. "Mas do ponto de vista global, foi um êxito em mostrar o Brasil como um interlocutor importante para as questões regionais."   O resultado do encontro dos líderes, que já recebeu críticas por juntar reuniões de vários grupos sul-americanos em uma mesma cúpula, é uma "sinalização de uma posição comum, principalmente em relação à crise econômica, mas não avança em aspectos mais substanciais, como o econômico". "Já temos alguns passos, como a criação do Conselho de Defesa sul-americano e a entrada de Cuba para o Grupo do Rio, mas não se pode esperar que vá muito além disso. Nesse momento, o avanço é político", conclui o especialista.

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