Pouca diferença entre direita e esquerda no Chile, diz analista

Em caso de vitória de Sebastian Piñera nas eleições deste domingo, maior mudança deve ser na política externa

João Coscelli, do estadao.com.br,

13 de dezembro de 2009 | 08h14

As eleições presidenciais deste domingo, 13, no Chile, podem marcar a primeira vitória eleitoral da direita no país desde 1964, quando Eduardo Frei Montalva venceu o pleito pelo Partido Democrata Cristão. As pesquisas indicam que Sebastián Piñera, do mesmo partido, deve colocar fim à hegemonia de 20 anos da coalizão de esquerda, no poder desde o fim da ditadura militar, em 1990, quando o general Augusto Pinochet, que chegou ao poder por meio de um golpe de Estado em 1973, foi rejeitado pela população em um referendo.

 

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Mesmo com a provável vitória de um candidato de linha conservadora, o modelo da administração chilena não deve sofrer grandes rupturas, conforma analisa Luis Fernando Ayerbe, professor de História e Relações Internacionais da Unesp. "Michelle Bachelet e os presidentes anteriores, embora oriundos de partidos da esquerda, fizeram um governo moderado, diferente de outros países da América do Sul. O modelo econômico usado durante a ditadura de Pinochet permanece em vigência no Chile", explica Ayerbe, ressalvando, porém, que no período da redemocratização, as reformas sociais ganharam mais espaço com a Concertación, a coalizão de esquerda que governa desde 1990.

 

O modelo ao qual o professor se refere foi o responsável por fazer do Chile a nação mais próspera entre os sul-americanos. A média do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) chileno de 2004 a 2007 foi superior a 5% - apenas em 2008, por conta da crise, a economia aumentou apenas 3,2%. O país andino também é o detentor do maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da América Latina, com 0,878, ocupando a 44ª posição no ranking que engloba 182 países.

 

Ayerbe associa esse patamar de desenvolvimento atingido pelo Chile à estabilidade conferida pelo modelo econômico liberal da ditadura Pinochet. "Diferentemente do que ocorreu no Brasil e na Argentina, durante o período pós-ditadura o Chile não passou por nenhuma crise", explica o professor. "O Chile transitou de forma bastante tranquila desde o fim da ditadura, e por isso não deve haver nenhuma grande ruptura no governo".

 

De acordo com os discursos de campanha de cada um dos candidatos - Piñera; o ex-presidente Eduardo Frei, candidato governista; e o independente Marco Enríquez-Ominami - prometem reformas moderadas, o que reflete a convergência partidária que se opôs ao governo Pinochet nas décadas de 1970 e 1980, segundo Ayerbe. "No Chile há duas coalizões centristas com duas tendências diferentes. Na época da ditadura, juntos, os partidos Socialista e Democrata Cristão formavam a oposição, e isso justifica essa aproximação", explica o professor.

 

Política Pós-Pinochet

 

Passadas duas décadas desde a ditadura, a necessidade dessa convergência não se coloca como uma questão estratégica na política e as diferenças ideológicas começam a reaparecer, segundo Ayerbe. "Os partidos vão passar a acentuar sua identidade própria, mas ainda não constituem dois blocos muito separados. Uma vitória conservadora não significará uma derrota no modelo político e econômico sustentado pela Concertación", analisa.

 

Segundo Ayerbe, a perspectiva de vitória dos conservadores não é nenhuma surpresa, já que o Chile segue em um período de estabilidade política e econômica. "Em um cenário de crise sim seria surpreendente a troca do governo, mas as coalizões chilenas são muito próximas e o eleitorado tende a ser menos polarizado", diz.

 

Política externa

 

As principais mudanças que devem ocorrer caso Piñera confirme a vitória dizem respeito às relações do Chile com os vizinhos sul-americanos, conforme explica Ayerbe.

 

"Michelle Bachelet teve um papel importante quando presidiu a Unasul (União das Nações Sul-americanas), apoiando Evo Morales, presidente da Bolívia, em sua reeleição e na sustentação de seu governo. Certamente o Chile deixará de apoiar a esquerda mais radical, como a da Venezuela e do Equador", analisa o professor.

 

Quanto aos EUA, a perspectiva de mudança é de uma aproximação ainda maior. "O Chile é país bastante aberto e tem acordos com os americanos, tem boas relações com a China e com os europeus", explica Ayerbe. Segundo o professor, há uma dependência econômica muito grande do país andino com os EUA e a Europa para que haja alguma mudança nessas relações.

 

Redemocratização

 

Em 2010, o Chile completa 20 anos do fim da ditadura de Pinochet. Desde 1990, o país passou pelo período chamado de redemocratização, uma fase, segundo Ayerbe, superada pelo governo, embora hajam resquícios da gestão militar.

 

"As Forças Armadas se fortaleceram durante esse período, e isso é reflexo da ditadura. Discute-se muito o destino do dinheiro da exportação de cobre, que durante o governo de Pinochet aparelhou os militares", detalha o professor. O cobre é o principal produto da economia chilena.

 

Segundo ele, o grande desafio dessas duas décadas pós-ditadura era fazer com que o modelo econômico liberal tivesse também reformas sociais, o que foi feito principalmente durante o governo de Michelle Bachelet, vigente desde 2006. "O Chile teve uma grande melhora, mas ainda que esteja próximo dos níveis do primeiro mundo,há muito o que se fazer, principalmente na questão indígena", indica Ayerbe, afirmando que o país poderia estar em uma posição ainda maior no ranking de IDH da ONU.

 

 

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