Raúl Castro leva Cuba gentilmente para as reformas

Medidas do presidente cubano parecem aproximar socialismo cubano aos moldes da China e do Vietã

Marc Lacey, do The New York Times,

02 de maio de 2008 | 16h17

Desde quando finalmente foi nomeado sucessor de seu irmão Fidel, de 81 anos, em fevereiro, Raúl Castro, de 76, que apareceu ante centenas de milhares de cubanos no Dia do Trabalhador, esteve ocupado com uma rápida mudança. Nas últimas oito semanas, ele anunciou a aberta do acesso aos telefones celulares, levantou o embargo que proibia que cubanos se hospedassem em hotéis para turistas e garantiu aos agricultores o direito de cultivar terras ociosas.   Mais está a caminho, dizem oficiais do governo, como facilitar as restrições para viagens ao exterior e a possibilidade de permitir que cubanos comprem e vendam seus próprios carros, e até mesmo suas casas. Cada uma dessas mudanças podem parecer microscópicas em comparação aos maiores problemas que Cuba enfrenta. Porém, reunidas, elas abalas a ilha distorcida pelo tempo.   Apenas o como Raúl está disposto a consertar o país que herdou do irmão e o que, independente do que seja, ele está agindo sem que ninguém saba ao certo de que forma. As tentativas de Mikhail Gorbachev em revigorar o machucado sistema soviético levou ao colapso da Rússia e ao abandono de Cuba. Mais inspiradora é a mistura de consumismo e pragmatismo autoritário político que energiza o fortalecimento do Partido Comunista no Vietnã e na China.   A China é agora o segundo maior parceiro comercial de Cuba, e o Vietnã é um dos primeiros países que Raúl disse que pretende visitar. Líderes dos dois países visitaram e se reuniram com os irmãos Castro no ano passado. Analistas cubanos afirmam que Raúl Castro, como o ministro da Defesa que mais tempo permaneceu no cargo, tem laços fortes com os Exércitos dos dois países e proximidade com representações que conhecem bem as duas nações.   "Este é o modelo da Ásia", disse Robert Pastor, professor de Relações Internacionais da American University. "Os sinais que ele manda são tão fracos e temporários que não deixam claro o que ele quer para Cuba ou para onde Cuba seguirá.". Marifeli Perez-Stable, uma cubana de Havana especializada no estudo da democracia na América Latina e Caribe, disse: "Ele nunca dirá. Não estou certa de que ele saiba. Porém, ele está seguindo a China, e até mesmo o Vietnã", o que significa que Raúl está talhando uma aproximação lenta.   Nestes países, a liberdade econômica é uma coisa, e a política outra. O governo de Cuba tem dado sinais de que pretende seguir esta linha. Porém, a iniciativa de Raúl em consertar já se revelaram incômodas e potencialmente desestabilizadoras, realidade num país que por 50 anos foi comandado por um dos mais rígidos sistemas socialistas do mundo: em que alguns cubanos foram mais longe do que outros, seja por conta de remessas de parentes do exterior, laços com a classe governante ou aquisição de dinheiro não autorizado.   Agora, o novo governo parece disposto a aceitar estas disparidades, tolerando a noção de diferentes classes enquanto tenta unir a visão cubana de socialismo que inclui subsídios alimentares, educação pública e sistema de saúde para todos, segundo afirmam apoiadores de Raúl. Se esta abordagem satisfizer os cubanos, que estão rapidamente se tornando mais cientes de suas privações consumidoras, é outra questão. Uma panela de arroz sozinha custa três vezes mais do que a média mensal do salário imposto pelo Estado.   Mesmo para os que podem comprar, está é uma viagem em outro mundo que estava fora dos limites há algumas semanas. Outro dia, uma jovem discutiu por mais de 20 minutos para entrar em um quarto de hotel em Havana, atolando o cartão que abre a suíte acidentalmente e forçando a porta para tentar abrí-la. Ela poderia ser desculpada, já que era a primeira vez em que ela estava usando a tal inovação tecnológica. No caso dela, o namorado pagou uma fatura de R$ 175 dólares. "Diferentes classes sempre existira, mas têm agora mais visibilidade" explica a antropóloga especialista em Cuba María Ileana Faguaga. "Agora você só observa quem possui um celular".   O modelo de Raúl, que um jornal estatal chamou de "mais perfeito socialismo", parece ser uma ilha com grande correlação entre o trabalho feito e a recompensa resultante. Um dos movimentos mais distantes foi o anúncio de que ele daria o direito aos agricultores de cultivar em terras ociosas. Cuba gastou mais de US$ 1,4 bilhão com a importação de alimentos no ano passado, e com o recente aumento do preço dos alimentos, gastará mais de US$ 1,9 bilhão neste ano para comprar 20% menos produtos. O governo permitirá ainda um controle mais local da produção, dizem autoridades, esperando pelo aumento da produção nacional.   Washington tem desmentido que as medidas são mudanças estruturais necessárias em Cuba. "Vejo como algo triste depois de 49 anos de carências, sofrimento e repressão da população que agora pode comprar uma panela de arroz", disse Carlos Gutierrez, secretário do Comércio, cuja família deixou Havana na década de 1960 quando ele tinha 6 anos. "Nossa leitura é que estes são movimentos táticos projetados para serem aplicados em algum momento". Quando parece que o apoio político à elite está verdadeiramente perdendo força, o fato é que Raúl não cedeu muita coisa. Ele incentivou os cubanos a apresentarem-se com críticas de como as medidas estão funcionando, embora insista que o modo apropriado de fazê-las seja através dos canais do Partido Comunista.   Quando o grupo de mulheres de presos políticos organizaram um ato do lado de fora do escritório de Raúl recentemente, uma equipe de policiais femininas apareceram para retirar as chamadas Damas de Branco em ônibus. "Quanto as dificuldades são grandes, mais ordem e disciplina serão necessárias", disse Raúl aos membros do partido recentemente, ao anunciar o novo Congresso Comunista para 2009.   Ainda que Raúl tente copiar o estilo de reformas chinesas, não há garantias de sucesso. Nos últimos anos, a china se distanciou do plano central de socialismo, permitindo medidas de relaxamento político que sinalizou um descolamento nas atitudes oficiais. "É possível que Raúl Castro siga o culto à personalidade que o seu irmão Fidel, que está na mesma linha do Mao Tsé-tung?", questionou Michael Green, ex-especialista do governo Bush para Ásia. Cuba poderia ainda se tornar mais parecida com a Coréia do Norte, diz Green, que adotou reformas orientais de mercado em 2002 e que melhoraram as condições no país.

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